Já era noite, a neblina tomava conta da cidade e dava um aspecto esbranquiçado para a luz amarelada emanada dos antigos postes coloniais que cercavam a praça onde estava. Poucas pessoas transitavam pela rua de paralelepípedos que circundava a grama úmida do local. Os bancos de madeira, envelhecidos pelo passar dos anos, já presenciaram inúmeras histórias, felizes e tristes. Um banco em especial era o seu preferido, voltado para um antigo prédio já abandonado, aguçava a mente de Túriel, que ali ficava durante alguns minutos.
Enquanto olhava para a construção condenada pela fragilidade de sua estrutura corroída, a garota pensava em quantas histórias suas paredes já presenciaram. Algumas já conhecidas por boatos da vizinhança, outras que aconteceram apenas em sua imaginação. Criava famílias imaginárias e situações enquanto assistia pelas janelas quebradas dos apartamentos, como um filme onde o roteiro tomava forma e contrastava com o cenário esquecido bem a sua frente.
Sua imaginação tomava tanta força que, em alguns momentos, podia jurar ter visto luzes se acenderem e pessoas transitarem entre os cômodos de um andar ou outro. Aquele era o seu filme particular, a sua sala de cinema.
Tinha suas personagens favoritas, algumas em quem era apegada, já outras que se passavam por vilãs nas tramas desenvolvidas. Além destas personagens, carregava consigo um pequeno caderno de bolso, onde fazia anotações e insights sobre o enredo. Terminada sua "sessão", fechava o caderno e ia para casa para concretizar todos os acontecimentos em seus textos no computador. E ali, após um longo dia cansativo, realizava-se por ter feito mais um capítulo do grande filme chamado vida.
Vida que, para Túriel, não separava passado, presente e futuro, muito menos realidade e imaginação. Vida onde os antigos postes coloniais eram a iluminação perfeita para as histórias presenciadas naqueles antigos bancos de madeira.