sábado, 30 de abril de 2022

Leliana

Sua melhor companhia se resumia em uma câmera que, através das lentes, enxergava seu próprio mundo. Morava em um apartamento antigo no sul de Los Angeles que escolhera somente pela vista da janela - décimo sétimo andar. Daquele pequeno canto chamado de "seu" podia ver a constante disputa entre os arranha-céus para decidirem qual levaria o título de mais alto.

Seu longo e liso cabelo cor de sangue caía por cima dos grandes óculos que tornavam o mundo mais nítido. Os olhos, cor de mel, ganhavam vida quando tocados pelos raios de Sol, como se naquele momento uma dança entre dois seres singulares começasse. Nos lábios um claro e sutil batom rosé tornava evidente a delicadeza de suas palavras. Leliana era única, ímpar.

Ganhava a vida tirando fotos em festas, bares, casamentos, e todos os lugares que era convidada. O dinheiro não era dos melhores mas era suficiente para ela e sua gata - Ophelia. Tinha seus rituais, como, por exemplo, preparar um café forte e doce e sentar em frente à sua janela para assistir o pôr do Sol. Ah... Aquela era a melhor parte de seus dias! Ficava encantada em como os últimos raios - já cansados - passavam pelos vãos dos prédios e desenhavam no chão imagens que aguçavam sua imaginação.

Ophelia, já acostumada com a rotina, deitava todos os dias no mesmo lugar, observando sua dona e certificando-se de que nenhum rato faria mal à ela naquele momento tão singelo.

- Até amanhã, grandão.

Com a chegada da noite, acendia um abajur de chão estrategicamente posicionado no canto de sua sala. A lâmpada possuía filamentos de carbono, não era como as padrões, proporcionando uma iluminação baixa, mas suficiente para desenhar sombras nos tijolos vermelhos que davam forma ao imóvel.

- Você está com fome, Ophelia?

A gata levanta e vai em direção ao pote, belisca alguns grãos de ração e começa a se lamber calmamente.

- Não precisava comer só porque eu falei, né? Sabe, às vezes eu acho que você me entende melhor do que as outras pessoas.

Leliana deita no sofá de couro preto próximo à luz e observa a Lua, começa a pensar em quantas pessoas, além de si, estariam olhando para ela naquele exato momento.

Perde-se nos pensamentos.

Será que amanhã descobrirá um lugar novo para fotografar?

- Esse mundo é muito louco...

Aquele era o mundo da fotógrafa, sem passado, sem futuro, apenas o presente. Leve, calmo, magnífico, efêmero.


Um brevíssimo conto sem começo nem fim, sem início nem conclusão, sem desfeches nem enigmas, mas com um ambiente calmo e relaxante, como uma leve brisa que toca o peito e logo em seguida vai embora.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Ethan

Sentado em sua poltrona, Ethan esperava pela morte pacientemente. Na sua mão direita uma taça de vinho pela metade, na esquerda um charuto já no fim. A sala estava escura, com poucos pontos de luminosidade vindos de velas que dançavam conforme a corrente de ar.

As chamas, que diminuíam e aumentavam de tamanho, desenhavam imagens diabólicas na parede da lareira que outrora estava viva. Eram os seus demônios interiores, seus maiores pesadelos, agora companheiros entre um gole e outro daquela bebida doce como o beijo do último suspiro.

À sua frente um velho livro, empoeirado pelos anos, pairava sobre a mesa de centro. Suas páginas, já amareladas, passaram por muitas histórias junto de seu dono. Seu companheiro de idade e também de memórias, imortais nos versos do autor que jazia sem vida em algum canto da Romênia.

Olhava para aquele amontoado de páginas com um certo desprezo, afinal, no fundo gostaria de ser imortal como ele. Abria um sorriso quando seus olhos percorriam os desenhos ainda presentes na parede.

O ranger de uma pesada porta de madeira ecoa pelo cômodo. Sua empregada, com metade do rosto posicionado sobre o vão, perguntava se ele realmente tinha certeza de sua decisão. Afinal, um homem rico como ele tinha muito o que aproveitar na vida.

Ethan dá de ombros e pergunta a mulher:

- Minha querida, não se preocupe com a riqueza. Você já ouviu falar de uma alegoria nomeada Totentanz?

A mulher dá de ombros e responde negativamente com a cabeça.

- Então venha aqui, vou te explicar.

Após um breve suspiro encorajador, coloca-se adentro na sala escura, passos lentos e receosos, enquanto vislumbra os desenhos projetados pelas velas.

- O que você vê na parede? Pois eu vejo uma singela dança entre luz e trevas. Totentanz, a dança macabra, é uma obra inspiradora para mim. Independentemente de sua riqueza, status, beleza, se você é alto ou baixo, bom ou mau, a dança da morte une a todos. Isso é simplesmente magnífico!

O homem já corroído pelos anos esboça uma leve empolgação enquanto se ajeita na poltrona por um breve momento, até começar a escorregar novamente e se encontrar na mesma posição de antes.

- Ah! A dança é tão linda. Eu já vivi demais, minha cara. O passar dos anos tem me presenteado com algo cujo valor é inestimável: boas lembranças.

Enquanto o homem falava, a empregada sentava-se ao seu lado, esquivando-se disfarçadamente da fumaça que pairava no ar. Pensativa, olhava em um ponto fixo, desligando-se de tudo à sua volta.

- Gostaria de dançar comigo ao som do fim?

Assentindo com a cabeça, levanta-se e põe sua mão em direção à mão de Ethan, que sorri ao ter sua resposta, soltando o resto de charuto no chão.

Naquele momento, entre o bailar das sombras maculadas sobre a lareira, a mão de sua empregada metamorfoseia-se em um pequeno frasco preto. O velho abre a tampa, pega dois comprimidos e os leva à boca junto de um último gole de vinho.

- Obrigado por me conceder uma última dança, minha velha amiga.

Ethan se encosta na poltrona com um sorriso no rosto, fecha os olhos e começa a cantarolar uma antiga música.


Suas mãos soltam a taça e o frasco, o charuto já não mais exalava fumaça. As sombras desaparecem junto do fim das velas.

Já não se ouve mais a música.


Anna e o jardim de lavandas

    Anna caminha sobre um jardim de lavandas, com um chapéu largo feito de palha cobrindo seus longos cabelos pretos. No topo um laço vinho como sangue, comprido, parece bailar ao doce toque do vento. Seu rosto carrega um sorriso junto de seus olhos fechados para qualquer problema que ousasse interferir no movimento da imensidão roxa que cobria o campo. Seu vestido, branco como a neve, era o toque final daquela obra produzida pelo instante. O esmalte preto em suas mãos parece evidenciar toda a leveza do ambiente ao seu redor. 
    Um longo suspiro, o som de sua respiração se mistura com a natureza. Neste momento, neste singelo momento, abre seus olhos em direção às nuvens. Desenhos apresentam-se para aquela que dança no jardim de lavandas - Está em paz. 
    Em uma fração de segundos, o tempo se torna cinza. Levando suas mãos em direção ao peito, Anna sente um forte aperto no coração. As nuvens ficam carregadas e relâmpagos deslizam pelos ares. O que está acontecendo? 
    Sua respiração acelera, começa a correr, voltando todo o caminho que havia percorrido. O laço vinho escapa de seu chapéu, pairando acima das flores roxas do jardim. Neste momento, neste macabro momento, se dá conta de que não sabia de onde viera, muito menos para onde estava indo. O que diabos estava fazendo ali? 
    Sem olhar para o chão onde pisa, tropeça e cai. 
    Recuperando o fôlego perdido e se arrumando no sofá, Anna acorda no solavanco e sente os pingos de chuva entrarem pela janela de seu apartamento. Passa a mão pela testa já molhada, coloca o livro que estava aberto em seu colo na mesa de centro de sua sala, pega o resquício de um café que outrora exalava calor, toma um gole forçado e olha para o céu cinza de uma tarde de inverno. Nesta sequência, sem qualquer indício da fluidez que estava presente em seu sonho. 
    Há beleza ali, mais beleza do que em qualquer jardim de lavandas. 
    Um café inacabado, um livro fechado e, por fim, as gotas de chuva que ligam os dois mundos daquela garota dona dos cabelos da noite.