terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Canon in D

    Lars vivia em uma pequena cidade no interior da Suíça. Acordava todos os dias antes dos primeiros raios de Sol para ajudar sua família na humilde fazenda em que nascera. Completava seus afazeres e se preparava para ir à escola. Não tinha muitos amigos, afinal, quem gostaria de ter um caipira como amigo?

    Não ligava muito para isso, desde pequeno acostumou-se com a solidão. Fez dela uma amiga. Porém, existia algo diferente naquele garoto que crescera junto à porcos e vacas. Andava sempre com um pequeno caderno de anotações onde escrevia poemas que explodiam em sua cabeça. Via beleza nas coisas mais singelas da vida, mesmo estando sozinho e não tendo alguém para chamar de amigo.

    Era mais uma sexta-feira, como todas as outras, e lá estava ele estudando a matéria que mais gostava, literatura, enquanto pequenas bolinhas de papel eram arremessadas em sua cabeça e um baixo murmúrio sussurrava em seu ouvido: vá cuidar dos porcos, caipira.

    As carteiras cuja madeira estava velha e cheia de cicatrizes pareciam completar aquele ambiente antigo, janelas imensas cobriam as paredes de fora a fora. Ah! Sua pintura favorita! As árvores que observava por aqueles vidros gigantescos, uma pintura viva que dançava com o vento, cujo farfalhar era música para seus ouvidos. Fechava os olhos e tudo estava bem, a natureza o acalmava.

    A professora, então, saiu repentinamente da sala. Após alguns segundos voltou dizendo aos alunos que tinham uma nova companheira de sala - Anasthasia. Todos ficaram encantados com aquela garota dos cabelos dourados e olhos verdes como as imponentes árvores que delimitavam a área escolar.

    Lars sequer deu-se ao trabalho de levantar a cabeça para observá-la. Para ele seria apenas mais uma bolinha de papel se chocando contra seus pensamentos. Apenas mais uma sexta-feira de literatura. Quando a garota passou por ele, sentiu o perfume floral emanar de seus cabelos, aquele aroma era familiar, afinal, estava acostumado a lidar com flores e com a natureza.

    A menina dos cabelos de ouro sentou-se ao seu lado, era onde estava vago, pensou. A aula continuou, junto dos autores que já se foram, junto do seu pequeno caderno de poesias.

    - Pode me emprestar uma caneta?

    Aquela voz pairou sobre o ar, sem respostas.

    - Ei, com licença, poderia me emprestar uma de suas canetas?

    Lars não estava acostumado com pessoas se direcionando à ele. Sentiu um leve e sutil puxão na manga de seu uniforme, todo amarrotado. Olhou para o lado, chocou-se com toda a vida presente na natureza em apenas um olhar. Seu coração acelerou, não sabia como reagir, não estava acostumado com aquilo.

    - Desculpe, não queria te atrapalhar.

    - Não é isso. Aqui, pode ficar com essa.

    - Obrigada. 

    A garota sorriu e perguntou seu nome, automaticamente o garoto começou a olhar ao seu redor, pensando ser apenas mais uma piada de mal gosto de sua turma. 

    - Lars.

    - Muito prazer, Lars. Acho que você já sabe, mas me chamo Anasthasia.

    O garoto acenou e voltou aos estudos. Com o término da aula, ainda sem jeito, o garoto organiza seus materiais e levanta para ir embora. Seu pequeno mundo de folhas amareladas com o tempo, cobertas por poesias, acaba caindo de seus braços. Tentou imediatamente pegá-lo, mas sem sucesso, pois o mesmo já estava nas mãos da mais nova aluna de sua turma. Engoliu seco, esperando mais uma chacota, abaixou a cabeça e ouviu a doce voz emanar palavras que surpreenderam seu coração:

    - Você escreve muito bem.

    Rapidamente pegou o livro e se foi. Durante o caminho até a fazenda ficou imaginando um mundo totalmente diferente da sua realidade. Um mundo onde a poesia e os fios dourados dançavam ao vento, juntos das folhas verdes daquele novo olhar que cruzou o seu caminho. Uma garota como aquela nunca teria olhos para um caipira como ele, disso já estava conformado.

    Enquanto se afastava da escola. Anasthasia sentou em um canteiro, aguardando a chegada de seus pais, abriu a bolsa, pegou um pequeno diário rosa e começou a escrever a poesia do improvável, do desconhecido, do misterioso.

    Há quem diz que as poesias nunca se entrelaçaram, outros acreditam no mistério das entrelinhas. Para Lars, Anasthasia era inalcançável. Para ela, a simplicidade do garoto agregava beleza àqueles versos escritos com uma caligrafia trêmula e desajeitada. A poesia não liga para dinheiro, para aparência, afinal, é ela quem nos mostra a aparência por trás de cada simples olhar, a beleza das árvores imponentes que refletem no vidro de uma escola chamada vida, que transforma o farfalhar em uma sinfonia única e singular.

    O tempo define cada compasso, esconde sentimentos, cria realidades que cabem em pequenas folhas de papel, amareladas com o passar do tempo, ou disfarçadas em um diário. O amor é o eterno mistério que rege cada pequena e única existência de uma grande sala de aula, onde todos sentimos, ao menos uma vez, como é estar na pele de um novo aluno.

    Uma história quebrada, infinda.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Danse Macabre





E hoje, novamente, pensei no fim
Pensei em desistir de tudo
De não só olhar para o abismo, mas pular nele também
Aceitar a dor que provavelmente será rápida e aguda

Pensei que após ela teria paz
Faria um favor para as pessoas à minha volta
Deixaria a vida seguir seu fluxo natural
Sem um empecilho como eu

Tenho saudades de outros tempos,
De outras vidas talvez,
Sem que minh’alma fosse drenada por outro ser
Até o lobo não tem mais forças

Penso como deveria ser a sensação de coma
E como seria bom não acordar dela,
Preciso de ajuda?
Os livros já não mais escondem meu rosto

E o lobo uiva para que a Lua não se transforme em Sol pela manhã
Para que a luz não volte mais,
Já que a mesma sumiu do fim do túnel
E o luar não mais ilumina meu ser

Uma tempestade de ideias toma minha mente
Não consigo organizá-las como antes
O que está acontecendo comigo?
O que está acontecendo comigo?

E lá estávamos nós, em frente ao precipício, novamente
Sem vontade de olhar para trás, sem coragem de encarar o futuro
Você e eu, sozinhos, olhando para o fundo daquele imenso vazio que nos encarava
Todos os dias

A fumaça negra que entrava em meu quarto, se prendia no teto
Acorrentada por minhas incertezas e pretensões, cruéis
Me encara neste momento crucial, sorri
Aquela expressão... Tudo ficará bem, não é mesmo?

Tua mão toca a minha, meu coração acelera
Sua pele gélida e branca como a neve era enigmática
Dedos finos, delicados, com um esmalte negro como a noite
Memento mori

Foram as palavras sussurradas da tua boca
Lábios médios, delineados, marcados por um batom vinho
No momento não conseguia escutar seu som, minhas pernas paralisaram
Memento mori, foram as palavras que teus lábios dançaram

Um passo a mais e tudo estaria acabado, basicamente em uma fração de segundos
O impacto da queda seria nada comparado ao impacto de tudo o que passamos
Todos os fracassos, as derrotas, os enganos, os deslizes, você e eu
Lembro-me de que sou mortal, mas e você?

Uma vez tu pedistes socorro, em meio ao jardim de espinhos
Eu a salvei, e, desde então, me visitas em sonhos profanos
Aquela velha amiga, em forma de nuvem negra, paira sobre minh'alma de novo
E na luta contra os monstros acabo por tornar-me um deles

Sinto que o vazio e a incerteza mais uma vez assombram-me na guerra
Que o corvo do fim dos tempos volta a pairar sobre meu ombro
Gritando por um término, gritando por algo desesperador
Liberta-te, os tambores tocam novamente para ti, mortal

MEMENTO MORI

E de lá saltamos, do precipício, para a escuridão, para tua casa
E o corvo? Este continua a rodar no local da queda
Enquanto o monstro que aqui habita sorri e debocha do caos e a tristeza
Da ausência de algo que não consegue sentir

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

A macabra floresta do vazio

 



E de todos os caminhos que escolhi, encontro-me sempre na mesma fonte. 

Não uma fonte bela, como aquelas em que os pássaros encantam os olhos de românticos,
Mas suja e sem vida, onde um querubim derrama um fio de água na grande bacia de lodo.
Aprecio a vista com encanto, ora ora, há beleza no momento.

Começo a pensar em motivos para os pássaros não a escolherem, não brincarem ali na água.
Por mais que ela seja movimentada, não escapa do pobre destino de ser suja.
Faz mal àqueles que estão por perto, envenena aos poucos e, algum dia, secará.
É triste saber que uma fonte tão bela, um dia morrerá.

Olho para os céus e começa a trovejar, relâmpagos fazem a luz do ambiente,
Formam desenhos amaldiçoados em árvores cuja vida ainda é presente.
Traz para a superfície uma morte única, singela,
A morte do espírito

Do espírito de um corvo que paira sobre os braços do querubim
Olha em meus olhos e grita em meio aos trovões
-NEVERMORE!
Talvez sejam alucinações, talvez não.
O corvo abre suas asas e põe-se em minha direção, transformando-se em uma nuvem negra de gritos

O sofrimento das vozes é palpável, a tristeza que emana da nuvem é esmagadora,
E vai direto ao coração, à alma.
A nuvem negra passa através de meu corpo, tirando o último resquício de vida que ali habitava

-Merely this and nothing more...

Abro os olhos e me vejo despido, a vergonha sobe através de um corpo vazio
Feche os olhos, querubim! Poupe-se de ver tamanha aberração que vos fala!
Não desperdice a água que, comparada à mim, torna-se cristalina.
Deixe que meu corpo se vá, assim como os pássaros.

Assim com o corvo que agora há pouco atormentava minh'alma,
Volta para a tua tempestade e para a orla das trevas infernais, corvo.
Poupe o querubim que ali permanece, feito de pedra, porém mais completo que eu.
Que voe para longe, para o esquecimento, junto dos acontecimentos que envergonham-me

Junto com as ações que equivocadamente escolhi fazer
Junto com as lágrimas da maioria de minhas noites
Junto com a insegurança e os pesadelos que carrego comigo
Junto com tudo aquilo que opõe-se à minha felicidade

Deito-me, abraçando minhas pernas, no frio da noite
Chorando, em frente à fonte. O que diabos ela significa?
Pego no sono, mais e mais pesadelos assolam o período noturno
E, por fim, acordo para mais um dia real.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Samantha

        Vamos contar a história de uma existência a parte. Não seria possível inseri-la em seu próprio mundo, pois as palavras que existem no presente são insuficientes para descrever tamanha beleza e singularidade.

     Samantha possuía um jeito único. Seu olhar penetrava a alma, tinha a habilidade de disparar corações em uma fração de segundos. Samantha era a própria intensidade. Seus cabelos chamuscados queimavam toda e qualquer atenção que ameaçasse cruzar o seu caminho. Seu sorriso iluminava qualquer ambiente, por mais escuro que o mesmo estivesse.

      A pele clara escondia um mistério: seu coração - um mundo a parte. Gostava de roupas pretas, pois nelas via a imensidão do universo, a finitude de uma cor tão profunda quanto seus maiores desejos, ou simplesmente só se sentia bem com aquela paleta de cores com um único espaço ocupado.

      Seu gosto musical era extremamente variado, tudo dependia do seu humor ao abrir os olhos pela manhã. Gostava de livros intensos, fortes, como seu café. Acendia um cigarro, o primeiro após a longa noite de sono, e começava ali seu dia. Não gostava de pensar em todos os problemas que tinha para resolver, fazer isso deixava-a inquieta, incomodada, ansiosa. Preferia nem pensar, só tentava resolver conforme os problemas iam aparecendo à sua frente.

       Samantha sempre teve atitude.

       Questionava-se sobre o que era certo ou errado, muitas vezes seu coração ia contra a sua razão. Paralisada, esperava aquela tempestade de pensamentos e sentimentos acalmar para que pudesse continuar seguindo, um passo de cada vez. Um turbilhão de pensamentos, negativos, positivos, julgadores, corrosivos. 

       Em meio à tempestade, lá estava ela, com um sorriso no olho e uma piada na ponta da língua. Sabia disfarçar, camuflar o sofrimento em brincadeiras e alegria. Gostava de fazer os outros sorrirem, assim sentia que um pouco do vazio existente em seu peito era preenchido por mais que tal preenchimento fosse momentâneo. Samantha gostava de fazer os outros se sentirem bem.

       Tocava vários instrumentos, mas nenhum a tocava como gostaria, na alma. Sua jornada era longa, estava cansada de caminhar descalça sobre pedras à procura de se sentir completa, de poder ser ela mesma e sorrir verdadeiramente. Era uma pessoa do presente, com reflexos do passado bombardeando seus pensamentos e sentimentos como flashes de uma guerra inacabada.

       Neste ponto, vamos colocá-la em uma sala: paredes brancas puxadas para o gelo, um tapete bordô que forrava o piso formado por ripas de uma madeira clara como sua feição, cortinas brancas cobriam uma janela de vidro que presenteava a garota com uma vista cheia de pinheiros e flores. No canto direito da sala um piano branco de calda longa fora posicionado à frente de uma estante repleta de livros. Ah! Tantos autores antigos, já ausentes de vida, mas imortais nas letras de cada página. Vasos com plantas domésticas finalizavam o ambiente, fora de seu tempo. Aquele lugar realmente dava a impressão de ter parado no tempo, nem para frente, nem para trás.

        Ela ficava encantada com a riqueza de cada detalhe sutil.

     No outro canto, próximo à uma poltrona Luís XV condizente com a paleta de cores do local, havia um violino. Correu até ele, abriu um sorriso tão brilhante quanto seus olhos ao repousarem sobre aquele Stradivarius. Empolgou-se novamente, mas até quando?

    Quanto tempo para as notas das finas cordas de tal instrumento pararem de ecoar nas paredes brancas como o gelo? Aquela melodia esquentava o ambiente gelado, dançava com a melodia do piano, e trazia memórias de livros repousados sobre a clássica poltrona XV.

      Samantha trazia nas notas do violino o seu próprio mundo, pois só ela sabia a melodia daquela canção, da sua canção. Nenhum outro compositor, músico ou especialista conseguiria interpretá-la com tal intensidade. 

        As quatro estações de Vivaldi se juntam em um doce baile entre as notas estridentes da música chamada vida. Dançava pela sala, em cima do tapete bordô, junto ao movimento daquele violino.

        Seu mundo, seu violino, sua poltrona Luís XV e toda a neve que poderia cair naquele jardim que apreciava sua beleza pelo lado de fora da janela.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Caetano e a poesia

             Caetano era só, morava com seu cachorro em uma casa de campo. Caetano tinha das plantas sua companhia, do rio a sua música, do vento em seu rosto o carinho. Acreditava em tudo que conseguia ver, sentir, tocar, cuidar. Caetano era de verdade, nunca entendera as loucuras que os poetas falavam e escreviam.

            Alguns minutos de caminhada ao norte do riacho, erguera uma capela, toda de madeira, envelhecida pela longa dança entre sol e chuva. Acreditava que Deus estava presente nas flores, nas folhas, na água, nos peixes, até em seu velho amigo de quatro patas. Para Caetano, Deus era plural, e não singular.

            Aquele velho companheiro da natureza sempre reservava uns minutos dos seus domingos para agradecer a semana vivida. Afinal, não podia reclamar, tinha tudo que precisava bem ali, após a porta de sua sala. Aquele pequeno mundo era seu pedaço de paraíso.

            O tempo passava e as flores desabrochavam, entregando de presente um doce aroma de tranquilidade e harmonia. Estava em paz. Por mais que não entendesse de poesia, via nas asas das borboletas as cores que Caeiro mencionava. Grande tolo! Se soubesse como essas cores eram únicas não perderia tempo escrevendo baboseiras, aproveitaria esse tempo observando a bela caminhada daquele mix de cores voando sobre o pequeno paraíso de Caetano.

            O movimento das flores, o farfalhar de um novo dia, todos os detalhes não possibilitavam, para aquele velho com seu cachorro, um único segundo desperdiçado nas míseras folhas de papel.

            Que ideia mais ingênua, não é mesmo? Onde já se viu o perfume estar no perfume da flor? Para Caetano é só perfume e pronto. Sua vida era simples, por isso verdadeira. Vivia das sensações, das impressões e experiências gravadas na história daquelas velhas madeiras que sustentavam a capela.

            A verdade, para o velho camponês, está nos pequenos detalhes, nos detalhes mais simples, sem rodeio. O tempo passa porque a Lua se põe, deixando com que o Sol apareça para as flores seguirem seu rumo. As flores, para ele, nada mais são que o perfume, a cor e movimento que o poeta encontrava na borboleta.

            A borboleta nada mais é que um fragmento de Deus, onde o vento tira para dançar em meio à uma valsa entre a fauna e a flora. O Sol e a Lua nada mais são que dois apaixonados que não conseguem se encontrar. A capela? A prova de que o tempo existe, por mais que Caetano não consiga ver.

            As velas derretem e se acabam, as madeiras envelhecem, os pequenos bancos rústicos não possuem mais a resistência da juventude. E o cachorro? Nada mais é que uma poesia que acompanha seus passos, mesmo depois de sua própria madeira se decompor.

sábado, 8 de janeiro de 2022

Dormência

     Vidas passadas, quem acredita? Devo confessar que não acreditava muito, até então.

    Naquele momento em que os olhares se cruzam o mundo se cala. Não existe música, não existem conversas, os corações parecem pulsar em sincronia. Um aperto no peito define o despertar de algo há muito tempo adormecido.

    O gole de café se torna profundo, o calor daquele líquido repleto de significado e memórias traz à tona um coração acelerado, um resquício da imagem dos teus olhos. Ah, se soubesse o quão incríveis são os olhos teus, olhar que carrega o mundo, penetra a alma e derruba todas as muralhas que eu havia construído para me proteger. Realmente, seu olhar é a coisa mais linda que eu já vi.

    O tempo, ah o tempo, o maior arquiteto de tudo, onde um simples detalhe pode fazer toda a diferença. O tempo não tem pena, muito menos empatia. O tempo cria romances e dramas, sorrisos e lágrimas, saudades e esperanças de algo que talvez nunca aconteça. O tempo cura e também abre feridas, costura e dilacera a alma, tudo com um simples olhar.

    Quanto tempo fiquei preso no seu olhar? Eu já nem sei mais. Aos meus olhos foi uma eternidade, aos seus? Talvez uma fração de segundo. O tempo fecha, a chuva cai, cada gota toca o rosto como se estivesse mostrando que algo ainda vive. O tempo e o tempo, a hora e a chuva, moonlight e seu reflexo na lagoa. Helena e Lucas.

    Tomo outro gole de café cujo intervalo me mostra quão ínfimo é o meu olhar para o dia a dia. Tanta coisa acontece em um minuto e nem me dou conta... Respiro fundo, sinto uma breve tranquilidade, depois de anos sem saber o que era isso, sinto novamente que estou vivo. Por fim, deixo o copo vazio na pia, solto um sorriso pelo canto da boca, olho para as horas e continuo seguindo.

    No fundo, estou feliz. 

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Um eterno baile

     Lucas viajava sem rumo, buscando encontrar a sua metade. Não acreditava muito nessas coisas, mas sempre se questionava sobre a existência de uma alma gêmea que completasse cada ser. Gostava de andar sozinho, sozinho não, tinha um companheiro ao seu lado, inseparável, chamado silêncio.

    Por alimentar seu coração com tristeza e solidão aprendeu a não sentir saudade, muito menos apegar-se por pessoas que conhecia em suas idas e voltas. Sentia que estava morrendo aos poucos, morrendo por não se apegar em nada, ou melhor, em ninguém.

    Em uma quarta-feira, durante uma tempestade de neve, escondeu-se em um bar de Berlim, estava exausto, procurou informações sobre um lugar para passar a noite. Disseram que ao lado havia uma pensão de uma jovem que, após a morte dos pais, cuidava dos negócios.

    Seu nome era Helena, cabelos vermelhos como o vinho que despejava em uma jarra. Lucas paralisou-se ao vê-la, aquela mulher, escondida em uma estalagem por todo esse tempo, rodara o mundo para achar alguém com olhos tão belos como aqueles. Sua alma, dormente, tornou-se um farol repentinamente.

    Ao sentar-se em uma mesa ao lado da porta não a chamou, apenas observou suas idas e vindas pelo ambiente. Parecia deslizar entre as mesas, como se estivesse em um baile, uma habilidade exímia! Lucas estava encantado!

    Helena veio em sua direção, suas mãos gelaram, seu coração disparou, a garganta seca gaguejava ao pronunciar um simples bom dia. Ela sorriu, sua franja cobria o olho direito, onde protegia-se daquele olhar cheio de segredos. Ofereceu um vinho, Lucas aceitou e, instintivamente, perguntou se teria como passar um tempo no estabelecimento, após a afirmação da garota, disparou um sorriso singelo de agradecimento.

    Ao virar-se para atender outro cliente que chegara, o perfume de seus cabelos esvoaçados penetrou na alma de Lucas que, ao sentir aquele aroma, descobriu o verdadeiro significado daquela palavra que todos adoravam arremessar aos ares, mas poucos realmente sentiam: amor.

    A voz de Helena ecoava em seus pensamentos, o sorriso doce e inseguro por traz daquele cabelo desvendava um ser único e singular. Lucas não pensava em outra coisa a não ser ficar ali para sempre, acompanhando seus passos de dança por entre as mesas.

    Na manhã seguinte decidiu perguntá-la sobre a sua história. Ao sentar-se na mesa chamou-a com um breve aceno, perguntou o motivo de não sair dali e tentar algo melhor. Ao sentar-se junto de Lucas, começou a rir, sem entender o que estava querendo dizer. Lucas ficou totalmente sem jeito, a dona dos cabelos de fogo pediu desculpas e disse que se contasse o motivo, a chamaria de louca.

    Insistiu em saber, encantado pela beleza daquela mulher. Tudo o que conseguia pensar era em seu jeito meigo de falar. Em um impulso, colocou sua mão sobre a dela, instantaneamente ambos coraram-se. Helena abaixou a cabeça e começou a explicar que acreditava que um príncipe encantado viria buscá-la e levá-la para um lugar melhor, já que os negócios da família mal davam para sobreviver.

    Por um breve momento o silêncio tomou conta do ambiente, ao vê-la daquele jeito desarmada, indefesa, inclinou seu rosto perto dos longos cabelos e cochichou em seu ouvido:

    -Você aceitaria alguém como eu para ser seu príncipe?

    Ao ouvir tais palavras, o corpo de Helena involuntariamente atirou-se no pescoço de Lucas:

    Lucas abraçou-a fortemente, como se nunca mais fosse soltá-la. Naquele momento acreditou no amor, os poetas fizeram sentido, as cartas de amor tinham realmente valor. Em seu peito havia um aperto de felicidade, em seu ser havia uma metade, um ser que procurou em todos os lugares e achou ali, em uma estalagem velha de Berlim, coberta de neve.

    Decidiram partir na manhã do dia seguinte, passaram horas arrumando e planejando tudo. Helena estava ansiosa, Lucas também, ambos encontraram a felicidade após anos e anos de procura. O primeiro jantar de uma vida a dois, uma vida de amor e felicidade, onde a sobremesa ficava mais doce a cada colherada, e os corpos dançavam juntos em uma velha cama colonial.

    Na manhã seguinte Helena passou mal e desmaiou, preocupado, Lucas a levou imediatamente ao hospital mais próximo. Sentado na sala de espera, pensava no futuro, nas viagens junto dela, nas festas e nos dias chuvosos sentados frente à lareira. Lágrimas percorriam o contorno de seus olhos, estava amando alguém como nunca amou na vida, a cada segundo que passava tinha mais certeza de que aquela moça era sua alma gêmea.

    O médico plantonista quebra o silêncio da sala, Lucas levanta, preocupado, à procura de  notícias de Helena. Inclinando a cabeça, o médico informou que ela estava com câncer em estado terminal, Lucas desmoronou, seu mundo estava morto novamente.

    -Ela só tem mais um mês de vida Lucas, faça-a feliz, ela te ama muito, está feliz mesmo após a notícia do câncer, pois disse que encontrou o príncipe que iria curar todas as suas doenças e fazê-la feliz.

    Lucas caiu em prantos ao ouvir o médico, queria vê-la a todo custo. Chegando na sala, colocou as roupas em Helena, colocou a mão pálida sobre os ombros e a pegou no colo.

    -Vamos para casa meu amor, o seu cavalo branco a espera lá fora

    A garota olhou-o com os olhos repletos de lágrimas e sorriu. Apertou-se contra Lucas, estava em casa, estava em paz, no peito de seu príncipe encantado que esperou a vida toda.

    Viajaram para vários lugares, Lucas fez de Helena a mulher mais feliz do mundo em seus últimos dias, tornou-a princesa do castelo chamado vida, e rainha de um futuro destinado à um ponto final.

    Helena foi enterrada em Berlim, onde nasceu e viveu até o encontro com seu príncipe. Lucas a encontrou após três meses devido à depressão causada pela sua partida. Na lápide, onde estão enterrados juntos, encontra-se a descrição: Uma história de amor bela e feliz, onde nem a morte conseguiu separá-los.

Any

    Any vivia uma vida tranquila, era cercada de amigos, acabara de trancar sua atual faculdade de astronomia para percorrer novos horizontes em outra área. Seus cabelos eram castanhos como o tronco da árvore mais bela, Yggdrasil - a árvore da vida. Dava cor ao jardim que ficava em frente a sua casa e contrastava com as cores de suas tatuagens pelo corpo, como se houvesse, entre elas, uma valsa eterna e singular.

    Adorava ler romances, os nacionais fascinavam e enchiam sua vida de alegria e devaneios. Os livros, colocados ao lado de uma xícara de café, conversavam com seus receios sobre os romances reais. O medo do distanciamento após a valsa e a mistura dos sentimentos era nítido.

    Um dia, pelas linhas traçadas pelo destino, conhecera alguém diferente. Alguém que compartilhava de vários gostos parecidos aos daquela garota, alguém que, ao ter uma conversa, proporcionava um sentimento prazeroso à ambos, recíproco. A cada momento, cada palavra, seu rosto esboçava um sorriso que não vinha da mente, mas do coração. E para esse alguém, o mesmo ocorria.

    Estava chovendo, o frio tomava conta de tudo, a neblina proporcionava um ambiente digno de cinema, das ruas clássicas de Londres. Ele estava com uma blusa de manga comprida e mesmo assim tremia de frio, já Any estava de short, uma blusinha leve, rindo da situação em que ele se encontrava. Pobre coitado, não estava acostumado com o clima local. 

    Chegara até ali, era isso que importava: poder contemplar a beleza digna do olhar de sua amada, abraçá-la e se envolver na valsa dos corpos pela primeira vez. Foi perfeito, sorriu, sentiu, amou. Porém ele era ingênuo, medroso, covarde. Não conseguia contar a situação atual em que se encontrava para Any e terminou por meter os pés pelas mãos, acabando com o coração da garota.

    O tempo passou, resolveu tudo o que tinha de resolver, decidiu voltar ao encontro da mesma. Pegou o primeiro trem e um livro para entregá-la de presente. Enfrentou novamente o frio e o clima do qual não estava acostumado. Any não era qualquer uma, era especial. Apareceu na sua porta, ensopado pela chuva, tirou o livro de dentro da jaqueta onde protegia das gotas grossas, frias, e entregou a ela. Queria ter, consigo, um pouco de flores, mas não achara nenhuma floricultura aberta durante a madrugada.

    Explicou tudo o que acontecera, que não era sua intenção magoá-la e que não era como os outros, que viera até ali apenas para entregar o livro, pois já se conformara que não voltaria a tê-la novamente. Any, por sua vez, jogou o livro garagem a dentro, abraçou-o fortemente, agora ambos molhados pela chuva que caía, olhou nos seus olhos e beijou aquele que aparecera em sua vida através das linhas do destino.

    Neste momento, durante o sentimento daquele beijo caloroso que Any dera, acaba por acordar em uma das paradas do ônibus. Olhou pela janela molhada e embaçada, agarrou o livro embrulhado em um papel de presente, soltou um suspiro, e desceu em direção à faculdade.

Chega de coisas frias

Coloque mais lenha na fogueira
Vamos esquentar o clima
Chega de tristezas, lágrimas
Agora é aumentar a autoestima

Desconstruí a tristeza
Revivi a beleza
De um bom vinho doce
Pairando sobre a mesa

Já que a vida é uma peça de teatro
Coloca-te a máscara alegre na face
Deixa a triste de lado, no canto
Deixe que o tempo a leve

Aproveite o restante da vida
Uma manhã fria, uma margarida desabrochando
Admire a cor nas asas da borboleta
Que fazem ela ser realmente cor

Contemple as coisas pequenas
Por mais simples que as mesmas sejam
São únicas, universalmente únicas
Assim como o ar que tu respiras

Mude a forma de tratamento
O tempo da oração
Outrora tinha medo de errar
Mas agora? Não!

Seja forte como uma teia de aranha solta aos ares
Seja frágil como a carne tem de ser
Seja mortal como qualquer ser humano
Tenha a felicidade que sua alma sempre almejou



O fogo e a foto

A chuva caía sobre o rosto de Lourie, o livro que estava embaixo de seus braços soltava gotas de uma história de amor. O clima em Londres estava frio como a vida da garota cujos cabelos pareciam estar em chamas. O esmalte preto contrastava com a pele branca como neve. O sobretudo bege colocava em evidência os traços inseguros de seu rosto e seu pequeno tamanho.

Na rua haviam várias pessoas com chapéus, bengalas, sobretudos, guarda-chuvas, mas nenhuma com coração. Pessoas frias como o anoitecer daquele dia chuvoso. Os carros passavam encharcando o resto de humanidade daquela cidade, os prédios enfeitavam grosseiramente as ruas de uma cidade que já foi bela, como Lourie.

Gostava de romances, imaginava a todo momento como seria encontrar o príncipe de sua vida, aquele cujo cavalo branco não jogaria água em sua roupa, nem poluiria uma paisagem tão linda como aquela. Procurava sua alma gêmea, em cada página de uma história já traçada pelos autores.

Lourie tinha um jeito simples, era tímida e totalmente sem jeito com diálogos. Sentia que estava sozinha enquanto não lia, como se o mundo a ignorasse. Para muitos, era apenas mais uma pessoa em meio a multidão. Para uma pessoa, era Lourie em meio a apenas mais uma multidão.

Havia alguém, entre as pessoas, que via Lourie de um jeito diferente. Sua simplicidade e seu esmalte preto significavam a beleza de mais um dia de que ela fazia parte. Adorava tirar fotos da moça dos cabelos de fogo, sentia como se ela expressasse toda a beleza de Londres e daquele dia chuvoso. Tristeza? Não, alegria ao ver a chuva tocando sua pele branca, deixando pequenas gotas em seu esmalte preto, refletindo a luz e brilhando como a estrela de uma noite sem fim.

Enquanto sua mão subia pelo seu rosto, tocava seus cabelos e os ajeitava atrás da orelha, os cliques de uma câmera captam o movimento como um todo.  O sorriso por trás da lente mostrava o prazer de simplesmente vê-la. O chapéu curto e preto esboçava uma mentalidade diferente das demais pessoas da rua.

Claire era fotógrafa, passava o dia tirando fotos de pessoas e suas expressões, gostava daquela rua pois havia nela uma torre cujo estilo gótico diferenciava-a das demais. Seus cabelos curtos não precisavam de ajeitadas, seu batom vinho delineava uma boca delicada e sutil. O esmalte café acompanhava os movimentos das lentes, com uma sinergia única, como se os dedos e a câmera fossem uma só coisa.

A fotógrafa adorava música clássica, nas horas vagas, em seu apartamento, pintava quadros que traduziam os significados das paisagens de Londres. Mas havia um quadro que superava todos os demais, era único, sua obra prima: uma pintura cujos cabelos desenhados chamuscaram a beleza das outras obras. 

Enquanto olhava o quadro, colocava a ponta do dedo indicador na boca, com ar de quem estava analisando friamente os mínimos detalhes, até soltar um sorriso de canto de rosto. O clima em Londres continuava chuvoso, como a vida de Lourie, como os demais quadros de Claire.

Um caso diferente dos outros, um romance de mão singular. Claire não tinha um cavalo branco, muito menos um nome de príncipe. Lourie era tímida, não sabia da existência de Claire, mas, se soubesse, seu dia poderia ficar ensolarado novamente. O cavalo branco sairia dos livros tomando a forma de uma câmera, e o romance de sua vida fotografaria os momentos em que as duas passariam juntas.

Nas ruas de Londres, onde cada pessoa é fria como o clima local, há uma chama e há quem a fotografe, até o dia em que a chama encontre a câmera, o esmalte preto encontre o café, e o dedo, que outrora transformava paisagens em imagens, ajeite agora os cabelos ardentes de uma garota tímida e sonhadora.


Joseph e o tempo.

     Naquela sala antiga, sentava-se em uma poltrona, bebendo seu whisky. Na outra mão um charuto, antigo, já seco pelo passar dos tempos. Não ligava para o sabor amargo que preenchia sua boca, aquilo o whisky queimava.

     A lareira, já próxima de se apagar, estalava pedaços de jornais antigos, já devorados nas manhãs frias e cinzas de seu simples cotidiano. O som que aquela cidade grande e antiga cuspia caía direto na janela do seu quarto andar. A luz morna e os móveis de madeira rústica compunham um cenário aconchegante, calmo, tranquilo.

     Não tinha pressa, na verdade tinha todo o tempo do mundo para aquele charuto. Ainda que o gelo de seu copo já havia se tornado um com aquela bebida amarela que aquece a alma e anestesia o corpo, o sabor permanecia o mesmo em sua boca.

     E ali fica, sentado, dando goles e goles entre as buzinas e freadas. Seu olhar permanece o mesmo, esperando que o relógio dê a badalada final.

     Seus óculos, já surrados de uso, guardam imagens, lembranças, sorrisos, lágrimas, abraços, alegrias e tristezas. Joseph já estava farto de toda aquela emoção e dinâmica que o mundo tinha a oferecer. Naquele momento, seu momento, tudo que ele precisava estava naquela sala: uma garrafa já pela metade de seu whisky escocês, uma caixa quase no fim de charutos que ganhara de seu neto e um livro de Shakespeare que havia comprado há uns anos atrás em um sebo que já havia deixado de abrir as portas.

     Ele estava ficando velho, o tempo parou de correr e começou a caminhar ao seu lado com passos lentos. Agora eram amigos, mesmo que por um curto período.

     Os dias eram assim, um seguido do outro, passo após passo. Até que, em um domingo chuvoso, guardou o copo, fechou a caixa de seus charutos favoritos, colocou o livro sobre o peito, parou e abraçou aquele velho amigo chamado tempo.