quinta-feira, 28 de julho de 2022

Thundercall

Sentada na beira de uma calçada, Paloma olhava fixamente para um ponto, tentava se encontrar em meio à tantos pensamentos mútuos que mais pareciam com uma tempestade em sua cabeça - aquele era seu inferno pessoal.

Entre um trago e outro do cigarro de cereja que carregava consigo, tentava focar-se em um único pensamento para livrar-se do restante - Em vão. Sentia estar navegando conforme a maré, sem vela ou remo, sem rumo. O tempo era seu maior inimigo, este escorria entre seus dedos, esquivava-se de sua pele contornado e respeitando cada traço e linha de sua vida até ali. A liquidez que sentia constantemente afogava qualquer resquício de salvação que ousasse aparecer em seu coração.

Não havia uma luz no fim do túnel.

Não para Paloma.

Não para seus pensamentos perdidos em seu interior.

O tempo se fechava, olhava para as nuvens e sentia um alívio ao saber que mais alguém, naquela vastidão chamada de mundo, estava sobrecarregado. 

Outro trago. 

Fechava os olhos esperando ser tocada por uma gota qualquer, por menor que fosse. Aquela era sua humanidade, aquela era a sua tentativa de fuga, jogar-se de cabeça na tempestade que estava por vir.

Outro trago.

Escutava a chuva cair, mas não a tocava, questionava-se sobre suas escolhas de vida, sobre o caminho que percorrera até ali, sobre seus amigos, sua família, sobre o animal de estimação que sempre quisera ter, mas nunca tivera coragem de buscar. A chuva estava ficando mais forte, mas não sentia seu rosto molhado. Talvez perdera o último resquício de humanidade que tanto cultivava ali naquela calçada.

Outro trago.

Paloma abriu os olhos mas não viu o céu. Aquela imagem circular, aquela estranha imagem circular, era um buraco negro que pairava sobre sua cabeça, sugando todo e qualquer pensamento que ousava, até então, percorrer sua mente. De repente, uma serena voz ecoa em seus ouvidos:

- Se você ficar na chuva, vai acabar pegando um resfriado.

Inclinando sua cabeça para trás, a garota se depara com a imagem de um garoto vestindo um moletom preto.

- Você está bem?

Paloma assentiu com a cabeça.

Outro trago.

Nenhuma palavra saiu de sua boca. Ali ficaram por aproximadamente dez minutos, sem diálogos, sem qualquer ligação além de uma tempestade que castigava as ruas escuras e alaranjadas pela luz emanada dos postes, estes já cansados pelo passar dos anos.

O fluxo das gotas diminuía, chegando a cessar. O garoto tirou seu guarda-chuva de lado e o fechou. Acendeu um cigarro e continuou o seu caminho, após alguns passos olhou para Paloma e, com um leve sorriso de canto de boca, disse:

- Nos vemos em outra tempestade.

Outro trag... Não desta vez!

Olhou para seu cigarro de cereja, girou-o entre os dedos como quem gira uma escultura e observa todos os detalhes e arremessou-o no meio da rua. Levantou-se, olhou fixamente nos olhos do garoto e, ali, naquela fração de segundos, agradeceu sem deixar que qualquer palavra saísse de sua boca.

- De nada.

Cada um com seu caminho, seguiram em direções opostas.


Quantos caminhos se cruzam ao longo do dia? Quantas histórias percorrem, juntas em algum momento, as ruas da vida? Quantas vidas, que possuem um imenso potencial para seguirem juntas, apenas se esbarram embaixo de um guarda-chuva? Buscando proteção em meio à grande tempestade que castiga a mente humana?

Quantos laços se fazem e também desfazem na fração de um segundo? Quantas gotas de chuva caem de uma nuvem sobrecarregada?

Quantos detalhes deixamos passar, ou não damos o devido valor, em uma simples conversa?

Quantos guarda-chuvas se abrem bem acima de nossa cabeça para que não adoeçamos e, entre um trago e outro de um cigarro mal queimado, deixamos ir embora?

Sem nome, sem palavras, apenas olhares.

Apenas nos detalhes.


Apenas numa chuva de verão.

terça-feira, 19 de julho de 2022

Ophelia

     Ali caminhava em meu lugar favorito. Um gramado de onde gigantescas araucárias buscavam tocar os céus. O céu, repleto de nuvens escuras, parecia retribuir todo o esforço e vontade com que aquelas magníficas árvores procuravam-no, ali estavam de mãos dadas. Próximo ao centro daquele imenso paraíso havia uma pequena árvore, diferente das demais, um bugreiro, que parecia admirar sua copa no reflexo de um grande lago. Aquele era meu ponto de refúgio, do dia, do mundo, da vida.

    Ah, e lá estava você, sentada embaixo daquela sombra com um vestido preto, tênis e um livro apoiado de lado em sua perna. Seus olhos quebraram, naquele momento, toda e qualquer defesa que criei ao longo dos anos, um olhar que desarmou-me completamente, deixando-me atônito. Naquele momento, naquele exato momento, descobri que o amor poderia morar até mesmo em um singelo brilho de olhar.

    Os trovões que ecoavam nos céus nos lembravam de algo parecido com uma sinfonia de Beethoven. E essa, especificamente, é a lembrança mais bela de todas: seus cabelos compridos passavam bem em frente ao seu rosto, mas não tiravam seu foco: meu coração. O perfume que exalava da tua pele preenchia um vazio que andava comigo há muito, muito tempo. Um sorriso acompanhado de uma das suas manias que eu mais amava: franzir a sobrancelha. Pelos deuses, como eu amava sua cara de dúvida ou indignação quando franzia as sobrancelhas!

    Como eu gostaria de passar a eternidade naquele lago, ouvindo a doce sinfonia dos trovões, sentindo o perfume dos seus cabelos e olhando diretamente no fundo da sua alma, ou daquela persona que você criou ali, na beira do lago. Eu amava cada detalhe seu, cada mísero detalhe de sua existência.

    Após um curto período de tempo, a tempestade chegou e fomos embora, cada um seguindo o seu caminho, deixando para trás lembranças de um encontro no refúgio.

domingo, 17 de julho de 2022

Arthur

Arthur senta-se na cadeira.
Arthur pega uma boa e velha dose de seu whisky favorito.
Arthur cauteriza a sua alma com aquele líquido amarelado - amadeirado.
Arthur coloca a mesma música, todos os dias.

Dias repetitivos, pensamentos repetitivos,
Sentimentos? Não, estes não se encontram mais.
Estes já se foram há muito tempo, junto do brilho de seus olhos,
Junto de mais um pôr-do-sol.

Acende um charuto já ressecado pela falta de cuidado,
Esboça um leve sorriso do canto de sua boca e diz para si mesmo:
- Doses homeopáticas...
Sabia que estava se envenenando e, no fundo, gostava disso.

Estava cansado.
Cansado de se esforçar, de se doar, de se doer.
Ah, como estava cansado!
Naquele momento, o silêncio era seu companheiro de honra.

É no silêncio que Arthur bebe seu whisky.
É no silêncio que Arthur fuma seu charuto.
É no silêncio que Arthur retoma o fôlego.
É no silêncio que Arthur fica surdo pelos gritos da sua alma.



quinta-feira, 9 de junho de 2022

Túriel

Já era noite, a neblina tomava conta da cidade e dava um aspecto esbranquiçado para a luz amarelada emanada dos antigos postes coloniais que cercavam a praça onde estava. Poucas pessoas transitavam pela rua de paralelepípedos que circundava a grama úmida do local. Os bancos de madeira, envelhecidos pelo passar dos anos, já presenciaram inúmeras histórias, felizes e tristes. Um banco em especial era o seu preferido, voltado para um antigo prédio já abandonado, aguçava a mente de Túriel, que ali ficava durante alguns minutos.

Enquanto olhava para a construção condenada pela fragilidade de sua estrutura corroída, a garota pensava em quantas histórias suas paredes já presenciaram. Algumas já conhecidas por boatos da vizinhança, outras que aconteceram apenas em sua imaginação. Criava famílias imaginárias e situações enquanto assistia pelas janelas quebradas dos apartamentos, como um filme onde o roteiro tomava forma e contrastava com o cenário esquecido bem a sua frente.

Sua imaginação tomava tanta força que, em alguns momentos, podia jurar ter visto luzes se acenderem e pessoas transitarem entre os cômodos de um andar ou outro. Aquele era o seu filme particular, a sua sala de cinema.

Tinha suas personagens favoritas, algumas em quem era apegada, já outras que se passavam por vilãs nas tramas desenvolvidas. Além destas personagens, carregava consigo um pequeno caderno de bolso, onde fazia anotações e insights sobre o enredo. Terminada sua "sessão", fechava o caderno e ia para casa para concretizar todos os acontecimentos em seus textos no computador. E ali, após um longo dia cansativo, realizava-se por ter feito mais um capítulo do grande filme chamado vida.

Vida que, para Túriel, não separava passado, presente e futuro, muito menos realidade e imaginação. Vida onde os antigos postes coloniais eram a iluminação perfeita para as histórias presenciadas naqueles antigos bancos de madeira.

domingo, 15 de maio de 2022

Passa o tempo

Uma pessoa me fala que o dia passa muito rápido, já outra que esse mesmo dia demora para passar. O dia é o mesmo para ambos, faça chuva ou faça Sol. As nuvens continuam a correr pela imensidão azul que cobre nossas cabeças. Os pássaros continuam voando de árvore em árvore em busca de conquistar mais um dia de vida. Nas ruas, carros passam em constante fluxo, cada um com suas histórias, seus amores, medos, objetivos. Cada um com o seu TEMPO.

Quantos segundos tem um minuto? Quantos minutos tem uma hora? Quantas horas tem um dia? Para a pessoa focada em alcançar um determinado objetivo a resposta é: poucos. Já para a outra pessoa, que anseia por encontrar alguém, que sente saudade e cria inúmeras situações imaginárias para poder falar tudo o que seu coração grita para exorcizar, a resposta é o oposto. Segundos viram minutos, minutos viram horas, horas viram dias.

Qual a imensidão do seu segundo?

Quantos mundos você já criou em seus pensamentos para conversar com aquela pessoa especial e poder falar tudo o que sente? Quantas foram as reações diversas que sua mente fez com que ela tivesse? Pare e pense. E assim se passaram apenas alguns segundos para outra pessoa qualquer, mas não para você.


terça-feira, 10 de maio de 2022

Coralina

Coralina era doce como o perfume das flores, dançava em meio aos campos de braços abertos girando em direção ao céu. Seu cabelo cor de fogo incendiava as folhas secas que o vento tirava para dançar. Seu espírito era tão único, tão singular, que me encantava a cada volta em seu próprio eixo.

Tal existência parecia flutuar entre os próprios passos. Seu sorriso roubava todas as atenções, ofuscando qualquer sentimento negativo em meu ser. Ali fiquei por algum tempo, contemplando a magnificência daquele pequeno momento no paraíso. Até que Coralina parou de costas para mim e, com uma leve inclinação de seu pescoço, me olhou por cima do ombro.

Céus, seu olhar atingiu diretamente o fundo de minha alma. O impacto foi brutalmente sentido por todo o meu corpo, corpo que adormeceu no mesmo instante, meu espírito havia se separado da carne. Fui atropelado por um sentimento que não me deixava dúvidas, eu a amava.

Um sorriso bobo pulou do meu rosto, meus olhos estavam perdidos em cada detalhe daquela garota escondida atrás de seu próprio ombro. O perfume daqueles longos cabelos chamuscados arrancava todo e qualquer pensamento que ousava invadir seu reinado absoluto. Um doce aroma de frutas vermelhas ecoava dentro de minhas vias respiratórias e causava um estrago inigualável.

Fui em direção à ela, passos lentos, ainda receosos e a abracei sutilmente. Suas mãos acariciavam meus braços enquanto olhava nos meus olhos. Não dizia uma palavra, embora nenhuma conseguiria descrever o sentimento mútuo ali presente. Apertei meus braços contra seu corpo e pousei minha cabeça no seu ombro direito. Um longo suspiro tomou conta dos segundos posteriores.

Coraline ergueu a mão esquerda em direção à minha cabeça e começou a acariciar meu cabelo. Ah, como eu gostaria que aquele momento fosse eterno! Ergui um pouco a cabeça, apoiando meu queixo então em seu ombro e disse:

- Eu te amo, por Deus, como eu te amo…

No mesmo instante, Cora saiu dos meus braços e ficou de frente para mim. Sua mão acariciava a maçã do meu rosto, mas sua expressão havia mudado. Olhos lacrimejados tomavam o espaço ocupado pela alegria de antes. Um sorriso trêmulo e lágrimas desciam em direção ao chão. Abaixei a cabeça olhando para a grama verde sob meus pés, afastei sua doce e delicada mão de minha pele:

- Já entendi, Cora… Se cuide, tá?

Ergui a cabeça e dei, por fim, um beijo em sua testa.

Virei-me de costas e voltei a seguir o meu caminho. Um caminho chamado vida, um caminho que me levaria para lugares inimagináveis. Um caminho onde o ponto final é desconhecido.


Um caminho feito para ser seguido só.


domingo, 8 de maio de 2022

30 minutos

Lembro-me da primeira vez que conversei com Sophia, uma leve garoa cobria o céu e dava brilho às ruas de uma pequena cidade do interior de São Paulo. Estávamos parados em frente ao restaurante esperando nossas caronas para irmos embora. Um doce perfume exalava de seu sobretudo verde musgo, uma mistura de lavanda com cedro e notas de baunilha - Digo isso, pois sempre gostei de me aventurar nos detalhes dos perfumes, acredito que falam muito da personalidade de cada um.

Seus olhos possuíam uma cor esverdeada e seu cabelo liso era negro como a noite, por um breve momento, entre uma luz e outra dos carros que ali passavam, tive a impressão de ver um leve tom azulado no mesmo. Que figura mais encantadora era aquela que permanecia do meu lado enquanto olhava o céu com preocupação.

Passaram-se quinze minutos e nada de nossas caronas.

Meus olhos, entre uma parada e outra nos ponteiros do relógio, corriam em direção aos dela. Seus olhar cruzou-se, então, com o meu e um leve sorriso desajeitado apareceu em seu rosto. Fiz questão de devolvê-lo, ainda mais sem jeito por ter sido notado - Sutileza nunca foi meu forte.

- Boa noite. Que horas são, por favor?

Surpreendido por uma voz levemente rouca porém firme que saltava de seus lábios, corri a mão sobre a manga da minha camisa e tirei-a da frente dos ponteiros. Céus, o meu nervosismo era tão evidente que causou uma curta e leve risada de canto de boca na garota que estava esperando sua carona.

- Oh, boa noite. São... 21:30. Desculpe!

- Eu que peço desculpas por tê-lo assustado.

- Não me assustou.

- Qual seu nome? Está esperando carona também, né?

- Sim. Meu nome é Eduardo. E o seu?

- Sophia, muito prazer.

- Será que essa chuva vai aumentar, hein? (Céus, que jeito terrível o meu de tentar iniciar um assunto).

- Espero que não.

Aparentemente ela também não era boa em conversar, ou simplesmente não estava afim. Não queria forçar um diálogo e parecer rude. Seu olhar era profundo, como se analisasse todos os movimentos dos que estavam à sua volta. Os detalhes da sua personalidade séria eram evidenciados na sua forma de agir, olhar, andar e gesticular.

Colocava as mãos nos bolsos do sobretudo enquanto olhava para seus coturnos, balançando na ponta dos pés - Para mim, um claro sinal de impaciência.

- Você é daqui? - Perguntei.

- Não. Na verdade... sou e não sou.

- Como assim?

- Nasci aqui, mas atualmente moro em Ohio, nos Estados Unidos. Cheguei há uma semana a trabalho.

- Entendo. Estava com saudades do Brasil?

- Sim e não. Tenho algumas lembranças não tão legais daqui, mas senti muita falta dessa sociabilidade que o Brasil tem. Posso contar nos dedos de uma mão quantas vezes algum americano puxou assunto comigo enquanto esperava uma carona como agora. E você?

- Por enquanto moro aqui.

- Por enquanto?

- Sim. Estou esperando uma vaga para trabalhar em Quebec. Já visitou o Canadá?

- Não, fiquei sabendo que as pessoas lá são mais frias ainda. Talvez, com sua ida, minha percepção acabe mudando. Pelo menos sei que vai ter uma pessoa disposta a conversar lá.

- Hahaha, obrigado, eu acho. Poderia me passar seu telefone? Gostei muito de conversar contigo.

- Certo, anota aí.

Anotei o número no celular e o guardei. Por um curto tempo todas as minhas ideias de assunto foram por água abaixo. A cada segundo que passava, meu desespero aumentava: O que eu deveria falar?. Percebi novamente suas mãos nos bolsos e tive a impressão de que não era impaciência, mas sim frio que Sophia estava sentindo.

- Muito frio?

- Um pouco. Não esperava essa reviravolta no tempo, confesso.

- Entendo.

Sem pensar duas vezes, peguei minha jaqueta e a coloquei por cima dos seus ombros. Espantada, tirou a mão direita do bolso e segurou minha jaqueta para que ela não caísse.

- Obrigada.

Seu jeito duro me encantava. Acredito que sua confiança não deveria ser fácil de se conquistar e isso era nítido na forma como seu olhar penetrava minha alma, era como se questionasse quais as minhas intenções entre um reflexo e outro das luzes dos carros que passavam na rua. Tratei de responder aquele olhar com um sorriso amigável, afinal, gostaria de conhecê-la melhor, descobrir os mistérios que se escondiam no labirinto de sua personalidade.

Vinte minutos se passaram até que o carro de Sophia finalmente chegou. Enquanto ia em direção à ele parou por um instante e colocou a mão nos ombros novamente, puxando a jaqueta que estava nos ombros.

- Nossa, quase me esqueci.

- Não, pode ir com ela.

- Mas é sua.

- Agora ela é um motivo para nos encontrarmos de novo, talvez ela pudesse virar um café em alguma dessas tardes, o que acha?

Sem esboçar sorriso, seus olhos apertaram meu coração. Tive a certeza de que receberia um não como resposta. A chuva estava quente comparada à temperatura de minha alma, talvez eu tenha colocado tudo a perder por ter sido afobado demais. Deus, por que falei aquilo?

- É, você tem razão. Muito obrigada pela gentileza. Até outro dia, então?

O ar voltou a correr em meus pulmões.

- Certo, tenho seu número. Te mando mensagem amanhã e combinamos.

- Vou esperar.

Seu carro partiu, enquanto um brilho bobo pairava sobre minha feição. Quem me via, naquele momento, via na verdade uma criança que acabara de ganhar doces. Céus, o que estava acontecendo? Há anos que eu não me sentia daquela forma!

Passaram-se poucos minutos e minha carona também chegara. Entrei no carro e, após alguns quarteirões, levei a mão no bolso para pegar o celular e avisar a portaria do prédio que deixasse o portão aberto, pois não queria tomar mais chuva. Procurei em todos os bolsos e o frio na espinha voltara ao meu corpo no mesmo instante.

Havia deixado meu celular na jaqueta.

quarta-feira, 4 de maio de 2022

Gato Preto

Beatrice voltava para casa,  um dia como qualquer outro em que chegaria cansada do trabalho. Seu caminhar evidenciava o stress de não gostar do que fazia, não era feliz. Morava duas ruas após o único cemitério da pequena cidade em que nascera. Vestia um sobretudo preto por cima do uniforme de recepcionista e, em seu ombro esquerdo, uma bolsa da mesma cor e de tamanho mediano. Seu salto alto constantemente questionava o resquício de energia que sobrava para seu equilíbrio, aquele realmente tinha sido um dia e tanto.

As ruas eram de paralelepípedos grandes e velhos, com pequenas vegetações saindo dentre os vãos criados pelo passar das décadas. As calçadas, em muitas partes já quebradas, pediam socorro, clamando pela atenção da prefeitura. Poucas árvores traziam cor para o ambiente.

As casas, antigas como o bairro todo em si, já estavam apagadas devido à hora de saída de seu expediente. Algumas com muros, outras sem, muros inacabados ou simplesmente incompletos por conta das condições financeiras dos moradores. Simplicidade nítida em todos os aspectos.

Durante a caminhada via gatos e cachorros soltos, revirando os lixos em busca de alimento. Animais que já estavam acostumados com o passar das pessoas e que sequer olhavam para as mesmas. Beatrice olhava para cada animal solto nos braços do mundo, daquele pequeno mundo por onde voltava para casa.

Um gato sempre lhe chamava a atenção, de pelagem negra como a noite, cujos olhos pareciam duas estrelas brilhando em sua direção. Não era um gato estranho, já estava familiarizada com ele, porém, naquele dia, naquele exato dia, seus olhos pareciam penetrar a alma da garota. Lá estava ele, sentado em cima do muro do cemitério, no mesmo lugar de sempre, com uma postura imponente, como se guardasse os outros animais ou seja lá quem estivesse por ali.

A garota sentiu um aperto no peito, o que estava acontecendo naquele dia? As ruas, casas, pedras, calçadas, os animais, tudo estava do mesmo jeito, inclusive aquele gato preto.

- Boa noite, bichano. - Disse Beatrice.

O gato sutilmente mexeu sua cauda, como se estivesse acenando em resposta ao cumprimento. Não deu qualquer sinal de querer soltar um miado sequer. Seu olhar era frio, sereno, como se estivesse esperando um leve deslize para agir. Suas garras, guardadas, afiadas, anseavam por sentir o calor daquele líquido rubro que corria pelo corpo da garota. Estava aguardando a sua hora, a hora em que sentaria sobre a lápide de concreto com o nome de Beatrice e dormiria o sono da eternidade junto da pobre garota. Pelo menos era isso que passava pela sua cabeça naquele momento.

Conforme ia se aproximando do gato para cruzar o seu caminho, a garota teve a leve impressão de que ele estava muito maior do que na noite anterior. Ao passar próxima ao muro, olhando para cima, os olhos daquele felino a acompanhavam, um passo após o outro. Beatrice sentiu vontade de gritar por socorro, sentia sua alma queimando e tentando escapar pela sua garganta, junto de seu coração que já estava em um ritmo assustadoramente acelerado. O que diabos estava acontecendo ali? Quem, ou melhor, o quê era aquele maldito gato?

Sentiu receio, pela primeira vez, em virar as costas para ele. Entre um passo e outro, uma eternidade se passou em seus pensamentos. Cenas grotescas tomavam conta da sua imaginação, enquanto lágrimas tentavam pular pelo canto de seus olhos. Sentiu saudade de sua mãe, de seu pai, e até mesmo do cachorro que a esperava em casa naquele dia. Pensou em se despedir, mesmo que na sua mente, de todos aqueles que amava.

Após dois ou três passos, respirou fundo e resolveu olhar para trás. Seus olhos percorreram o muro e lá estava o gato, do mesmo jeito, com os mesmos olhos maquiavélicos penetrando seu peito e atingindo diretamente o coração.

- Por favor, não me leve...

Mais alguns passos enquanto tentava se acalmar respirando lentamente e forçando a ideia de que realmente era apenas um gato, era apenas o gato preto que via todos os dias.

"Que loucura, onde já se viu ficar com medo do gato que eu vejo todo dia? O que está acontecendo comigo hoje? Realmente o trabalho está me afetando mais do que eu imaginava."

Conforme foi se acalmando, decidiu olhar para trás novamente, tentando confirmar para si que realmente não tinha nada demais. Assim que os olhos percorreram novamente o muro, porém mais certeiros na direção em que o felino estava, não o encontraram. Sem gato, sem barulho, sem qualquer sinal de vida.

- Nossa, eu aqui me tremendo toda e com certeza o gato estava com mais medo de mim do que eu dele! Hahaha

Beatrice seguiu o quarteirão, agora mais tranquila, afinal, era só um gato. Pegou o celular para ver as horas, viu uma mensagem aqui, outra ali, e guardou-o novamente. De repente, escutou levemente um miado, distante, quase inaudível. Olhou para trás procurando o gato na calçada, sem sucesso. Ao virar-se novamente para continuar seu caminho, notou uma pequena sombra em cima do muro mais adiante. Lá estava ele, os mesmos olhos, a mesma postura, o mesmo demônio que insistia em levá-la naquela noite de verão. Ao vê-lo, a garota tentou gritar com todas as forças que ainda restava.

Instantaneamente acorda com o segundo despertador, atrasada para mais um dia de trabalho. Sua respiração ofegante se recupera após um breve momento, seu coração acelerado vai se acalmando a medida em que se dá conta de que tudo não teria passado de um pesadelo.

Beatrice jogou sua coberta de lado e foi em direção ao banheiro. Ao abrir a porta sentiu uma leve ardência na pele do pescoço e um pequeno, ou talvez pensasse que fosse, detalhe ao lado do sanitário:

Uma caixa de areia.

sábado, 30 de abril de 2022

Leliana

Sua melhor companhia se resumia em uma câmera que, através das lentes, enxergava seu próprio mundo. Morava em um apartamento antigo no sul de Los Angeles que escolhera somente pela vista da janela - décimo sétimo andar. Daquele pequeno canto chamado de "seu" podia ver a constante disputa entre os arranha-céus para decidirem qual levaria o título de mais alto.

Seu longo e liso cabelo cor de sangue caía por cima dos grandes óculos que tornavam o mundo mais nítido. Os olhos, cor de mel, ganhavam vida quando tocados pelos raios de Sol, como se naquele momento uma dança entre dois seres singulares começasse. Nos lábios um claro e sutil batom rosé tornava evidente a delicadeza de suas palavras. Leliana era única, ímpar.

Ganhava a vida tirando fotos em festas, bares, casamentos, e todos os lugares que era convidada. O dinheiro não era dos melhores mas era suficiente para ela e sua gata - Ophelia. Tinha seus rituais, como, por exemplo, preparar um café forte e doce e sentar em frente à sua janela para assistir o pôr do Sol. Ah... Aquela era a melhor parte de seus dias! Ficava encantada em como os últimos raios - já cansados - passavam pelos vãos dos prédios e desenhavam no chão imagens que aguçavam sua imaginação.

Ophelia, já acostumada com a rotina, deitava todos os dias no mesmo lugar, observando sua dona e certificando-se de que nenhum rato faria mal à ela naquele momento tão singelo.

- Até amanhã, grandão.

Com a chegada da noite, acendia um abajur de chão estrategicamente posicionado no canto de sua sala. A lâmpada possuía filamentos de carbono, não era como as padrões, proporcionando uma iluminação baixa, mas suficiente para desenhar sombras nos tijolos vermelhos que davam forma ao imóvel.

- Você está com fome, Ophelia?

A gata levanta e vai em direção ao pote, belisca alguns grãos de ração e começa a se lamber calmamente.

- Não precisava comer só porque eu falei, né? Sabe, às vezes eu acho que você me entende melhor do que as outras pessoas.

Leliana deita no sofá de couro preto próximo à luz e observa a Lua, começa a pensar em quantas pessoas, além de si, estariam olhando para ela naquele exato momento.

Perde-se nos pensamentos.

Será que amanhã descobrirá um lugar novo para fotografar?

- Esse mundo é muito louco...

Aquele era o mundo da fotógrafa, sem passado, sem futuro, apenas o presente. Leve, calmo, magnífico, efêmero.


Um brevíssimo conto sem começo nem fim, sem início nem conclusão, sem desfeches nem enigmas, mas com um ambiente calmo e relaxante, como uma leve brisa que toca o peito e logo em seguida vai embora.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Ethan

Sentado em sua poltrona, Ethan esperava pela morte pacientemente. Na sua mão direita uma taça de vinho pela metade, na esquerda um charuto já no fim. A sala estava escura, com poucos pontos de luminosidade vindos de velas que dançavam conforme a corrente de ar.

As chamas, que diminuíam e aumentavam de tamanho, desenhavam imagens diabólicas na parede da lareira que outrora estava viva. Eram os seus demônios interiores, seus maiores pesadelos, agora companheiros entre um gole e outro daquela bebida doce como o beijo do último suspiro.

À sua frente um velho livro, empoeirado pelos anos, pairava sobre a mesa de centro. Suas páginas, já amareladas, passaram por muitas histórias junto de seu dono. Seu companheiro de idade e também de memórias, imortais nos versos do autor que jazia sem vida em algum canto da Romênia.

Olhava para aquele amontoado de páginas com um certo desprezo, afinal, no fundo gostaria de ser imortal como ele. Abria um sorriso quando seus olhos percorriam os desenhos ainda presentes na parede.

O ranger de uma pesada porta de madeira ecoa pelo cômodo. Sua empregada, com metade do rosto posicionado sobre o vão, perguntava se ele realmente tinha certeza de sua decisão. Afinal, um homem rico como ele tinha muito o que aproveitar na vida.

Ethan dá de ombros e pergunta a mulher:

- Minha querida, não se preocupe com a riqueza. Você já ouviu falar de uma alegoria nomeada Totentanz?

A mulher dá de ombros e responde negativamente com a cabeça.

- Então venha aqui, vou te explicar.

Após um breve suspiro encorajador, coloca-se adentro na sala escura, passos lentos e receosos, enquanto vislumbra os desenhos projetados pelas velas.

- O que você vê na parede? Pois eu vejo uma singela dança entre luz e trevas. Totentanz, a dança macabra, é uma obra inspiradora para mim. Independentemente de sua riqueza, status, beleza, se você é alto ou baixo, bom ou mau, a dança da morte une a todos. Isso é simplesmente magnífico!

O homem já corroído pelos anos esboça uma leve empolgação enquanto se ajeita na poltrona por um breve momento, até começar a escorregar novamente e se encontrar na mesma posição de antes.

- Ah! A dança é tão linda. Eu já vivi demais, minha cara. O passar dos anos tem me presenteado com algo cujo valor é inestimável: boas lembranças.

Enquanto o homem falava, a empregada sentava-se ao seu lado, esquivando-se disfarçadamente da fumaça que pairava no ar. Pensativa, olhava em um ponto fixo, desligando-se de tudo à sua volta.

- Gostaria de dançar comigo ao som do fim?

Assentindo com a cabeça, levanta-se e põe sua mão em direção à mão de Ethan, que sorri ao ter sua resposta, soltando o resto de charuto no chão.

Naquele momento, entre o bailar das sombras maculadas sobre a lareira, a mão de sua empregada metamorfoseia-se em um pequeno frasco preto. O velho abre a tampa, pega dois comprimidos e os leva à boca junto de um último gole de vinho.

- Obrigado por me conceder uma última dança, minha velha amiga.

Ethan se encosta na poltrona com um sorriso no rosto, fecha os olhos e começa a cantarolar uma antiga música.


Suas mãos soltam a taça e o frasco, o charuto já não mais exalava fumaça. As sombras desaparecem junto do fim das velas.

Já não se ouve mais a música.


Anna e o jardim de lavandas

    Anna caminha sobre um jardim de lavandas, com um chapéu largo feito de palha cobrindo seus longos cabelos pretos. No topo um laço vinho como sangue, comprido, parece bailar ao doce toque do vento. Seu rosto carrega um sorriso junto de seus olhos fechados para qualquer problema que ousasse interferir no movimento da imensidão roxa que cobria o campo. Seu vestido, branco como a neve, era o toque final daquela obra produzida pelo instante. O esmalte preto em suas mãos parece evidenciar toda a leveza do ambiente ao seu redor. 
    Um longo suspiro, o som de sua respiração se mistura com a natureza. Neste momento, neste singelo momento, abre seus olhos em direção às nuvens. Desenhos apresentam-se para aquela que dança no jardim de lavandas - Está em paz. 
    Em uma fração de segundos, o tempo se torna cinza. Levando suas mãos em direção ao peito, Anna sente um forte aperto no coração. As nuvens ficam carregadas e relâmpagos deslizam pelos ares. O que está acontecendo? 
    Sua respiração acelera, começa a correr, voltando todo o caminho que havia percorrido. O laço vinho escapa de seu chapéu, pairando acima das flores roxas do jardim. Neste momento, neste macabro momento, se dá conta de que não sabia de onde viera, muito menos para onde estava indo. O que diabos estava fazendo ali? 
    Sem olhar para o chão onde pisa, tropeça e cai. 
    Recuperando o fôlego perdido e se arrumando no sofá, Anna acorda no solavanco e sente os pingos de chuva entrarem pela janela de seu apartamento. Passa a mão pela testa já molhada, coloca o livro que estava aberto em seu colo na mesa de centro de sua sala, pega o resquício de um café que outrora exalava calor, toma um gole forçado e olha para o céu cinza de uma tarde de inverno. Nesta sequência, sem qualquer indício da fluidez que estava presente em seu sonho. 
    Há beleza ali, mais beleza do que em qualquer jardim de lavandas. 
    Um café inacabado, um livro fechado e, por fim, as gotas de chuva que ligam os dois mundos daquela garota dona dos cabelos da noite.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Luna

 

Como dizer a ti sobre meu amor, sem dizer sobre o mesmo?
Como demonstrar que todos meus pensamentos estão voltados a ti
Sem o mesmo fazer, e sem afastar o pouco que tenho de sua atenção?
Sem o mesmo dizer, que te amo, te amo

Não há muito diálogo, muito conhecimento mútuo
Apenas o ato de ver, ouvir, e não poder responder pessoalmente
Afinal, tu és bela e merece ser admirada
Uma legítima imperatriz da beleza humana

Jogarei então milhares de rosas aos teus pés
Esperando que não se machuque em mais espinhos neste caminho
No caminho de um jardim único teu, onde plantaras as mais belas flores
E, as pétalas ao tocarem o chão, ascenderá o perfume que reflete tua essência

A essência das rosas, que possuem espinhos, e no fundo são tão delicadas!
Ah, você é uma rosa única, no meio das milhares aos teus pés
O teu jardim é perfeito, o teu sorriso fornece a luz para a vida ali presente
Engrandece a felicidade em meu coração humano, de jardineiro

Um jardineiro que gostaria de cuidar do seu jardim
Cortar a maioria dos espinhos para não se machucar por besteira
Manter a luz do teu sorriso e, consequentemente, a vida das tuas flores
Contemplando a dádiva do cheiro da tua pele, das tuas pétalas

Entendo teu medo, o jardineiro já se machucou muito também
No meio do caminho já se furou inúmeras vezes em espinhos
Alguns venenosos, outros apenas dolorosos
Mas nos teus espinhos, não tenho medo de me furar, pois o perfume vale mais que qualquer furo

domingo, 13 de fevereiro de 2022

Caroline e Gabriel

 

            Caroline, morava na praia.

            Gabriel, paulistano, estava só de férias com sua família.

       Dois nomes, duas personalidades. Um único lugar. Gabriel não sabia, mas naquela tarde ensolarada de sábado encontraria em meio aos grãos que cobriam a praia de Balneário o amor de sua vida. Caroline estava saindo da água, uma prancha embaixo do seu braço esquerdo definia muito sobre seu cotidiano. Afinal, ganhava dinheiro ensinando como parar em cima daquele objeto pontudo e cuja estabilidade era ausente.

            Uma correntinha dourada e delicada cobria seu tornozelo direito. No seu pulso uma fina tira de couro desgastado completava uma volta em sua pele. Uma leve ajeitada em seu cabelo ondulado e castanho claro era mais que suficiente para chamar a atenção. Sonhava em sair dali por mais que aquele fosse seu dia a dia, sempre quis saber como era morar em uma cidade grande como São Paulo.

            Gabriel só queria voltar para sua cidade, sentia falta do som dos metrôs, da multidão correndo para não se atrasar, das buzinas e daqueles enormes arranha-céus que faziam parte da grande selva de pedra. Pensava que nunca encontraria alguém que combinasse com seus gostos bem ali, em uma praia.

            O Sol castigava qualquer um que ousasse sair de baixo de seu guarda-sol. A areia escaldava os pés, esquentando até as toalhas estiradas sobre ela.

            - Preciso beber algo.

            - Aproveita e traz uma cerveja pra mim, Biel – Disse sua mãe.

            - Tá, mas da próxima é você quem vai.

            - Só vai logo, moleque.

            Tinha apenas um caminho para seguir, deixando para trás um rastro na areia. Enquanto caminhava em direção ao bar, observava aquelas pessoas felizes e queimadas pela grande estrela que brilhava no céu.

            - Como esse povo consegue se divertir assim? Nossa, que Sol infernal. Pelo menos o bar tá razoavelmente perto da gente.

            - Me vê um suco de abacaxi?

            - Com gelo e açúcar?

            - Sim, quanto to devendo?

            - Olha, foram três sucos de morango na semana passada, mais dois de abacaxi essa semana, pra você eu fecho vintão tudo.

            - Beleza!

            Ali, de repente, estava a garota surfista apreciando aquele suco enquanto a mão direita buscava uma nota já gasta pelo uso excessivo para pagar Maurício, o dono do bar. O garoto se aproximou enquanto andava olhando para o seu celular. Caroline, com o suco nas mãos, vira rapidamente e acaba esbarrando no garoto.

            - Nossa, me desculpa.

O garoto mal olha para cima e responde friamente:

- Fica em paz.

A surfista, irritada com aquela falta de empatia, questiona:

- Você pode pelo menos olhar pra minha cara? O que tem de tão importante nesse celular?

Gabriel solta um suspiro e responde enquanto sua cabeça se ergue lentamente para encarar aquela moça que esbarrou em seu ombro:

- Minha casa. Eu nunca mais vou te ver mesmo, por que eu me preocuparia em olhar pra sua c...

Assim que seus olhos encontraram os dela o garoto travou, sua fala estava tomando o ritmo oposto das batidas de seu coração.

- Você não é daqui, né?

- Não, sou de São Paulo. E você?

- Nasci aqui, vivo aqui. Como é lá?

- Em São Paulo? Normal. Prédios, um trânsito infernal, pessoas correndo para todos os lados. Aqui não fica muito atrás, mas mesmo assim lá é uma loucura.

Os olhos da garota se encantavam com a descrição. Para ela, aquele era um novo mundo, por mais que Balneário ainda fosse enorme.

- Você devia visitar lá qualquer hora.

Caroline sorriu.

- Impossível, não tenho alguém que conheço lá. Mas quem sabe um dia a gente não se trombe novamente, só que dessa vez em SUA casa, né?

Gabriel ficou sem jeito.

- Anota meu número. Agora você conhece!

Trocaram os números, a garota voltou para a praia enquanto ele voltava para sua família.

O tempo passava e os dois conversavam cada dia mais. A distância era um simples detalhe entre as notificações que pipocavam nos celulares. Perguntavam coisas bobas, como músicas favoritas, filmes, costumes, e também falavam sobre como o dia de cada um foi. Gabriel se parecia muito com Caroline, por mais que vivessem em mundos totalmente diferentes.

Muitas músicas combinavam, outras nem tanto. Quando uma referência de filme era jogada naquela pequena janela de conversa o outro a completava. Estavam encantados por terem conhecido alguém tão compatível com seus gostos e jeitos. Gabriel não parava de pensar na garota um segundo sequer, e ali começou a sentir saudade da praia.

Os meses passaram e decidiram se encontrar. A surfista iria de encontro ao garoto da grande selva de pedra. Os segundos corroíam até sua chegada, a cada momento em que o transporte chegava mais próximo de seu destino, um novo frio na barriga tomava conta de Caroline. Sorrisos bobos saltavam pelo ar, as borboletas em seu estômago já estavam cansadas de tanto voar, precisavam de fôlego para continuarem o baile mais lindo que um coração poderia sentir.

Existem coisas que o tempo não diz, existem coisas que as conversas não mostram, existem sentimentos que nem o maior poeta dessa vida conseguiria expressar usando apenas as meras palavras criadas pelo homem. Existem sentimentos que nem o coração mais forte conseguiria suportar e dimensionar.

Finalmente a garota chegou ao seu destino. Desceu do ônibus procurando Gabriel em cada canto, em cada rosto em meio à multidão. E lá estava ele, com um gorro preto e um moletom, pois fazia frio em São Paulo. Embaixo de seu braço esquerdo levava um outro moletom para ela, pois não estava acostumada com o clima da grande metrópole.

Enquanto ela corria em sua direção, Gabriel andava calmamente, aproveitando cada passo e sorrindo com a importância e grandiosidade daquele momento único a ser vivido. Um abraço longo, seguido de lágrimas, os dois corações se tocavam pela primeira vez, os batimentos viraram um só, suas respirações sincronizavam-se em um baile onde até todos aqueles que estavam no salão pararam para assistir à dança.

Seus olhos se cruzaram enquanto os braços de Caroline pairavam sobre os ombros do garoto.

- Eu não acredito que a gente finalmente se viu novamente, Biel.

- Contei os segundos pra esse momento acontecer, Carol.

- E esse gorro aí? Não tá tão frio assim, seu doido!

Sorrindo, a garota puxa o gorro da cabeça de Gabriel. Enquanto o gorro caía de sua cabeça, seus olhos tocavam o chão com lágrimas de uma notícia que definiria uma história de amor.

- Ué, Biel. Cadê seu cabelo?

- Carol... – Gabriel aperta forte as mãos de Caroline. Preciso te contar uma coisa... Saiba que você me fez gostar de praia, sentir saudade da areia. Saiba também que todas as palavras que eu te disse até hoje foram verdadeiras, e que eu te amei sem nem precisar tocar seus lábios pela primeira vez. Você foi a coisa mais incrível que já aconteceu em toda a minha vida, e eu nunca vou deixar de te amar, nem aqui, nem depois.

- Biel? Não... Não, não, não, não... A gente vai superar isso! Hoje em dia temos médicos incríveis, não me assusta desse jeito, Biel. Por favor...

- Eu te amo, Carol. Vamos conhecer a cidade, tá? Tem muita coisa que eu quero te mostrar!

Gabriel mostrou sua cafeteria favorita, o parque, as lojas, até o metrô. Cada segundo ao seu lado, para Caroline, era extremamente valioso. Lágrimas caíam entre as paradas, entre os abraços, entre os momentos que passavam juntos enquanto o Sol tomava seu caminho.

- Biel?

- Sim?

- É tão grave assim?

- Sim.

- Quanto tempo?

- Três meses, talvez quatro.

- Não...

Um abraço forte encerra aquela pequena conversa enquanto o metrô chegava em sua última parada. Gabriel havia deixado um lugar especial para o final. Sabia que Caroline gostava da natureza e pensava naquele lugar para pedi-la em namoro. Sonhava com isso e pensava em cada detalhe para aquele momento tão singular.

- É aqui.

- Uau...

Um pequeno jardim em meio à grande selva de pedra. Um pequeno pergolado de madeira rústica cobria um velho banco de madeira, enquanto as plantas percorriam por todo o espaço. No chão, pequenas pedrinhas faziam a música de fundo enquanto mexiam os pés. Gabriel sentou ali, de um lado do banco. Caroline sentou na outra ponta, enquanto suas mochilas separavam os dois amantes.

- Seria aqui que tudo aconteceria.

- Como assim?

O garoto puxa de dentro da bolsa uma pequena caixinha preta e entrega nas mãos da surfista.

- Isso é um anel?

- Sim. Eu ia te pedir em namoro hoje... Mas semana passada veio a notícia, o resultado dos exames, e tudo foi muito rápido, Carol... Me perdoa.

A garota, em prantos, pula por cima das mochilas e abraça o menino da cidade grande.

- Eu aceito! Eu aceito!

Assustado, lágrimas caem de seus olhos.

- Mas eu não tenho muito tempo, meu amor... Eu quero te ver feliz, quero que seja feliz com alguém com quem possa ter planos futuros. Só Deus sabe o quanto eu queria que tudo isso fosse mentira. Como eu queria poder planejar viagens com você, acordar primeiro só pra poder te ver dormir, preparar um café da manhã e esperar você sair do nosso quarto com uma camiseta larga minha. Como eu queria poder viver uma vida com você, Carol.

O tempo passou e, apesar da distância, as alianças permaneceram juntas. Cada dia era único, cada segundo era imortal, assim como o amor de Gabriel e Caroline. As conversas continuavam e o tempo que passavam juntos valia cada segundo.

A saúde do garoto piorava constantemente, até que precisou ser internado. Ao seu lado, dormindo na poltrona com uma leve coberta estava ela. Gabriel estava sob medicamentos fortes, com dores, porém em seu peito morava toda a vontade de viver uma vida ao lado de Carol. A vida realmente era cruel. Queria voltar à praia, largar o celular assim que entrasse naquele bar novamente.

Era madrugada, o médico entra no quarto, toca os ombros de Caroline e acena negativamente com a cabeça, enquanto seus olhos se enchem de lágrimas. Caroline, assustada, pula da poltrona e vai em direção à Gabriel, que já não apertava mais sua mão. Cai em prantos, seu mundo desmoronava naquele momento, seu coração estava dilacerado com aquele longo apito das máquinas que preenchiam o quarto.

Após um tempo ao seu lado, já sem forças para aceitar a sua partida, Carol abraça seu amado e beija a sua testa.

- Eu disse que ia continuar cuidando de você.

Em uma segunda-feira chuvosa, as notificações do celular dela cessaram para sempre.

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Canon in D

    Lars vivia em uma pequena cidade no interior da Suíça. Acordava todos os dias antes dos primeiros raios de Sol para ajudar sua família na humilde fazenda em que nascera. Completava seus afazeres e se preparava para ir à escola. Não tinha muitos amigos, afinal, quem gostaria de ter um caipira como amigo?

    Não ligava muito para isso, desde pequeno acostumou-se com a solidão. Fez dela uma amiga. Porém, existia algo diferente naquele garoto que crescera junto à porcos e vacas. Andava sempre com um pequeno caderno de anotações onde escrevia poemas que explodiam em sua cabeça. Via beleza nas coisas mais singelas da vida, mesmo estando sozinho e não tendo alguém para chamar de amigo.

    Era mais uma sexta-feira, como todas as outras, e lá estava ele estudando a matéria que mais gostava, literatura, enquanto pequenas bolinhas de papel eram arremessadas em sua cabeça e um baixo murmúrio sussurrava em seu ouvido: vá cuidar dos porcos, caipira.

    As carteiras cuja madeira estava velha e cheia de cicatrizes pareciam completar aquele ambiente antigo, janelas imensas cobriam as paredes de fora a fora. Ah! Sua pintura favorita! As árvores que observava por aqueles vidros gigantescos, uma pintura viva que dançava com o vento, cujo farfalhar era música para seus ouvidos. Fechava os olhos e tudo estava bem, a natureza o acalmava.

    A professora, então, saiu repentinamente da sala. Após alguns segundos voltou dizendo aos alunos que tinham uma nova companheira de sala - Anasthasia. Todos ficaram encantados com aquela garota dos cabelos dourados e olhos verdes como as imponentes árvores que delimitavam a área escolar.

    Lars sequer deu-se ao trabalho de levantar a cabeça para observá-la. Para ele seria apenas mais uma bolinha de papel se chocando contra seus pensamentos. Apenas mais uma sexta-feira de literatura. Quando a garota passou por ele, sentiu o perfume floral emanar de seus cabelos, aquele aroma era familiar, afinal, estava acostumado a lidar com flores e com a natureza.

    A menina dos cabelos de ouro sentou-se ao seu lado, era onde estava vago, pensou. A aula continuou, junto dos autores que já se foram, junto do seu pequeno caderno de poesias.

    - Pode me emprestar uma caneta?

    Aquela voz pairou sobre o ar, sem respostas.

    - Ei, com licença, poderia me emprestar uma de suas canetas?

    Lars não estava acostumado com pessoas se direcionando à ele. Sentiu um leve e sutil puxão na manga de seu uniforme, todo amarrotado. Olhou para o lado, chocou-se com toda a vida presente na natureza em apenas um olhar. Seu coração acelerou, não sabia como reagir, não estava acostumado com aquilo.

    - Desculpe, não queria te atrapalhar.

    - Não é isso. Aqui, pode ficar com essa.

    - Obrigada. 

    A garota sorriu e perguntou seu nome, automaticamente o garoto começou a olhar ao seu redor, pensando ser apenas mais uma piada de mal gosto de sua turma. 

    - Lars.

    - Muito prazer, Lars. Acho que você já sabe, mas me chamo Anasthasia.

    O garoto acenou e voltou aos estudos. Com o término da aula, ainda sem jeito, o garoto organiza seus materiais e levanta para ir embora. Seu pequeno mundo de folhas amareladas com o tempo, cobertas por poesias, acaba caindo de seus braços. Tentou imediatamente pegá-lo, mas sem sucesso, pois o mesmo já estava nas mãos da mais nova aluna de sua turma. Engoliu seco, esperando mais uma chacota, abaixou a cabeça e ouviu a doce voz emanar palavras que surpreenderam seu coração:

    - Você escreve muito bem.

    Rapidamente pegou o livro e se foi. Durante o caminho até a fazenda ficou imaginando um mundo totalmente diferente da sua realidade. Um mundo onde a poesia e os fios dourados dançavam ao vento, juntos das folhas verdes daquele novo olhar que cruzou o seu caminho. Uma garota como aquela nunca teria olhos para um caipira como ele, disso já estava conformado.

    Enquanto se afastava da escola. Anasthasia sentou em um canteiro, aguardando a chegada de seus pais, abriu a bolsa, pegou um pequeno diário rosa e começou a escrever a poesia do improvável, do desconhecido, do misterioso.

    Há quem diz que as poesias nunca se entrelaçaram, outros acreditam no mistério das entrelinhas. Para Lars, Anasthasia era inalcançável. Para ela, a simplicidade do garoto agregava beleza àqueles versos escritos com uma caligrafia trêmula e desajeitada. A poesia não liga para dinheiro, para aparência, afinal, é ela quem nos mostra a aparência por trás de cada simples olhar, a beleza das árvores imponentes que refletem no vidro de uma escola chamada vida, que transforma o farfalhar em uma sinfonia única e singular.

    O tempo define cada compasso, esconde sentimentos, cria realidades que cabem em pequenas folhas de papel, amareladas com o passar do tempo, ou disfarçadas em um diário. O amor é o eterno mistério que rege cada pequena e única existência de uma grande sala de aula, onde todos sentimos, ao menos uma vez, como é estar na pele de um novo aluno.

    Uma história quebrada, infinda.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Danse Macabre





E hoje, novamente, pensei no fim
Pensei em desistir de tudo
De não só olhar para o abismo, mas pular nele também
Aceitar a dor que provavelmente será rápida e aguda

Pensei que após ela teria paz
Faria um favor para as pessoas à minha volta
Deixaria a vida seguir seu fluxo natural
Sem um empecilho como eu

Tenho saudades de outros tempos,
De outras vidas talvez,
Sem que minh’alma fosse drenada por outro ser
Até o lobo não tem mais forças

Penso como deveria ser a sensação de coma
E como seria bom não acordar dela,
Preciso de ajuda?
Os livros já não mais escondem meu rosto

E o lobo uiva para que a Lua não se transforme em Sol pela manhã
Para que a luz não volte mais,
Já que a mesma sumiu do fim do túnel
E o luar não mais ilumina meu ser

Uma tempestade de ideias toma minha mente
Não consigo organizá-las como antes
O que está acontecendo comigo?
O que está acontecendo comigo?

E lá estávamos nós, em frente ao precipício, novamente
Sem vontade de olhar para trás, sem coragem de encarar o futuro
Você e eu, sozinhos, olhando para o fundo daquele imenso vazio que nos encarava
Todos os dias

A fumaça negra que entrava em meu quarto, se prendia no teto
Acorrentada por minhas incertezas e pretensões, cruéis
Me encara neste momento crucial, sorri
Aquela expressão... Tudo ficará bem, não é mesmo?

Tua mão toca a minha, meu coração acelera
Sua pele gélida e branca como a neve era enigmática
Dedos finos, delicados, com um esmalte negro como a noite
Memento mori

Foram as palavras sussurradas da tua boca
Lábios médios, delineados, marcados por um batom vinho
No momento não conseguia escutar seu som, minhas pernas paralisaram
Memento mori, foram as palavras que teus lábios dançaram

Um passo a mais e tudo estaria acabado, basicamente em uma fração de segundos
O impacto da queda seria nada comparado ao impacto de tudo o que passamos
Todos os fracassos, as derrotas, os enganos, os deslizes, você e eu
Lembro-me de que sou mortal, mas e você?

Uma vez tu pedistes socorro, em meio ao jardim de espinhos
Eu a salvei, e, desde então, me visitas em sonhos profanos
Aquela velha amiga, em forma de nuvem negra, paira sobre minh'alma de novo
E na luta contra os monstros acabo por tornar-me um deles

Sinto que o vazio e a incerteza mais uma vez assombram-me na guerra
Que o corvo do fim dos tempos volta a pairar sobre meu ombro
Gritando por um término, gritando por algo desesperador
Liberta-te, os tambores tocam novamente para ti, mortal

MEMENTO MORI

E de lá saltamos, do precipício, para a escuridão, para tua casa
E o corvo? Este continua a rodar no local da queda
Enquanto o monstro que aqui habita sorri e debocha do caos e a tristeza
Da ausência de algo que não consegue sentir

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

A macabra floresta do vazio

 



E de todos os caminhos que escolhi, encontro-me sempre na mesma fonte. 

Não uma fonte bela, como aquelas em que os pássaros encantam os olhos de românticos,
Mas suja e sem vida, onde um querubim derrama um fio de água na grande bacia de lodo.
Aprecio a vista com encanto, ora ora, há beleza no momento.

Começo a pensar em motivos para os pássaros não a escolherem, não brincarem ali na água.
Por mais que ela seja movimentada, não escapa do pobre destino de ser suja.
Faz mal àqueles que estão por perto, envenena aos poucos e, algum dia, secará.
É triste saber que uma fonte tão bela, um dia morrerá.

Olho para os céus e começa a trovejar, relâmpagos fazem a luz do ambiente,
Formam desenhos amaldiçoados em árvores cuja vida ainda é presente.
Traz para a superfície uma morte única, singela,
A morte do espírito

Do espírito de um corvo que paira sobre os braços do querubim
Olha em meus olhos e grita em meio aos trovões
-NEVERMORE!
Talvez sejam alucinações, talvez não.
O corvo abre suas asas e põe-se em minha direção, transformando-se em uma nuvem negra de gritos

O sofrimento das vozes é palpável, a tristeza que emana da nuvem é esmagadora,
E vai direto ao coração, à alma.
A nuvem negra passa através de meu corpo, tirando o último resquício de vida que ali habitava

-Merely this and nothing more...

Abro os olhos e me vejo despido, a vergonha sobe através de um corpo vazio
Feche os olhos, querubim! Poupe-se de ver tamanha aberração que vos fala!
Não desperdice a água que, comparada à mim, torna-se cristalina.
Deixe que meu corpo se vá, assim como os pássaros.

Assim com o corvo que agora há pouco atormentava minh'alma,
Volta para a tua tempestade e para a orla das trevas infernais, corvo.
Poupe o querubim que ali permanece, feito de pedra, porém mais completo que eu.
Que voe para longe, para o esquecimento, junto dos acontecimentos que envergonham-me

Junto com as ações que equivocadamente escolhi fazer
Junto com as lágrimas da maioria de minhas noites
Junto com a insegurança e os pesadelos que carrego comigo
Junto com tudo aquilo que opõe-se à minha felicidade

Deito-me, abraçando minhas pernas, no frio da noite
Chorando, em frente à fonte. O que diabos ela significa?
Pego no sono, mais e mais pesadelos assolam o período noturno
E, por fim, acordo para mais um dia real.