quinta-feira, 28 de julho de 2022

Thundercall

Sentada na beira de uma calçada, Paloma olhava fixamente para um ponto, tentava se encontrar em meio à tantos pensamentos mútuos que mais pareciam com uma tempestade em sua cabeça - aquele era seu inferno pessoal.

Entre um trago e outro do cigarro de cereja que carregava consigo, tentava focar-se em um único pensamento para livrar-se do restante - Em vão. Sentia estar navegando conforme a maré, sem vela ou remo, sem rumo. O tempo era seu maior inimigo, este escorria entre seus dedos, esquivava-se de sua pele contornado e respeitando cada traço e linha de sua vida até ali. A liquidez que sentia constantemente afogava qualquer resquício de salvação que ousasse aparecer em seu coração.

Não havia uma luz no fim do túnel.

Não para Paloma.

Não para seus pensamentos perdidos em seu interior.

O tempo se fechava, olhava para as nuvens e sentia um alívio ao saber que mais alguém, naquela vastidão chamada de mundo, estava sobrecarregado. 

Outro trago. 

Fechava os olhos esperando ser tocada por uma gota qualquer, por menor que fosse. Aquela era sua humanidade, aquela era a sua tentativa de fuga, jogar-se de cabeça na tempestade que estava por vir.

Outro trago.

Escutava a chuva cair, mas não a tocava, questionava-se sobre suas escolhas de vida, sobre o caminho que percorrera até ali, sobre seus amigos, sua família, sobre o animal de estimação que sempre quisera ter, mas nunca tivera coragem de buscar. A chuva estava ficando mais forte, mas não sentia seu rosto molhado. Talvez perdera o último resquício de humanidade que tanto cultivava ali naquela calçada.

Outro trago.

Paloma abriu os olhos mas não viu o céu. Aquela imagem circular, aquela estranha imagem circular, era um buraco negro que pairava sobre sua cabeça, sugando todo e qualquer pensamento que ousava, até então, percorrer sua mente. De repente, uma serena voz ecoa em seus ouvidos:

- Se você ficar na chuva, vai acabar pegando um resfriado.

Inclinando sua cabeça para trás, a garota se depara com a imagem de um garoto vestindo um moletom preto.

- Você está bem?

Paloma assentiu com a cabeça.

Outro trago.

Nenhuma palavra saiu de sua boca. Ali ficaram por aproximadamente dez minutos, sem diálogos, sem qualquer ligação além de uma tempestade que castigava as ruas escuras e alaranjadas pela luz emanada dos postes, estes já cansados pelo passar dos anos.

O fluxo das gotas diminuía, chegando a cessar. O garoto tirou seu guarda-chuva de lado e o fechou. Acendeu um cigarro e continuou o seu caminho, após alguns passos olhou para Paloma e, com um leve sorriso de canto de boca, disse:

- Nos vemos em outra tempestade.

Outro trag... Não desta vez!

Olhou para seu cigarro de cereja, girou-o entre os dedos como quem gira uma escultura e observa todos os detalhes e arremessou-o no meio da rua. Levantou-se, olhou fixamente nos olhos do garoto e, ali, naquela fração de segundos, agradeceu sem deixar que qualquer palavra saísse de sua boca.

- De nada.

Cada um com seu caminho, seguiram em direções opostas.


Quantos caminhos se cruzam ao longo do dia? Quantas histórias percorrem, juntas em algum momento, as ruas da vida? Quantas vidas, que possuem um imenso potencial para seguirem juntas, apenas se esbarram embaixo de um guarda-chuva? Buscando proteção em meio à grande tempestade que castiga a mente humana?

Quantos laços se fazem e também desfazem na fração de um segundo? Quantas gotas de chuva caem de uma nuvem sobrecarregada?

Quantos detalhes deixamos passar, ou não damos o devido valor, em uma simples conversa?

Quantos guarda-chuvas se abrem bem acima de nossa cabeça para que não adoeçamos e, entre um trago e outro de um cigarro mal queimado, deixamos ir embora?

Sem nome, sem palavras, apenas olhares.

Apenas nos detalhes.


Apenas numa chuva de verão.

terça-feira, 19 de julho de 2022

Ophelia

     Ali caminhava em meu lugar favorito. Um gramado de onde gigantescas araucárias buscavam tocar os céus. O céu, repleto de nuvens escuras, parecia retribuir todo o esforço e vontade com que aquelas magníficas árvores procuravam-no, ali estavam de mãos dadas. Próximo ao centro daquele imenso paraíso havia uma pequena árvore, diferente das demais, um bugreiro, que parecia admirar sua copa no reflexo de um grande lago. Aquele era meu ponto de refúgio, do dia, do mundo, da vida.

    Ah, e lá estava você, sentada embaixo daquela sombra com um vestido preto, tênis e um livro apoiado de lado em sua perna. Seus olhos quebraram, naquele momento, toda e qualquer defesa que criei ao longo dos anos, um olhar que desarmou-me completamente, deixando-me atônito. Naquele momento, naquele exato momento, descobri que o amor poderia morar até mesmo em um singelo brilho de olhar.

    Os trovões que ecoavam nos céus nos lembravam de algo parecido com uma sinfonia de Beethoven. E essa, especificamente, é a lembrança mais bela de todas: seus cabelos compridos passavam bem em frente ao seu rosto, mas não tiravam seu foco: meu coração. O perfume que exalava da tua pele preenchia um vazio que andava comigo há muito, muito tempo. Um sorriso acompanhado de uma das suas manias que eu mais amava: franzir a sobrancelha. Pelos deuses, como eu amava sua cara de dúvida ou indignação quando franzia as sobrancelhas!

    Como eu gostaria de passar a eternidade naquele lago, ouvindo a doce sinfonia dos trovões, sentindo o perfume dos seus cabelos e olhando diretamente no fundo da sua alma, ou daquela persona que você criou ali, na beira do lago. Eu amava cada detalhe seu, cada mísero detalhe de sua existência.

    Após um curto período de tempo, a tempestade chegou e fomos embora, cada um seguindo o seu caminho, deixando para trás lembranças de um encontro no refúgio.

domingo, 17 de julho de 2022

Arthur

Arthur senta-se na cadeira.
Arthur pega uma boa e velha dose de seu whisky favorito.
Arthur cauteriza a sua alma com aquele líquido amarelado - amadeirado.
Arthur coloca a mesma música, todos os dias.

Dias repetitivos, pensamentos repetitivos,
Sentimentos? Não, estes não se encontram mais.
Estes já se foram há muito tempo, junto do brilho de seus olhos,
Junto de mais um pôr-do-sol.

Acende um charuto já ressecado pela falta de cuidado,
Esboça um leve sorriso do canto de sua boca e diz para si mesmo:
- Doses homeopáticas...
Sabia que estava se envenenando e, no fundo, gostava disso.

Estava cansado.
Cansado de se esforçar, de se doar, de se doer.
Ah, como estava cansado!
Naquele momento, o silêncio era seu companheiro de honra.

É no silêncio que Arthur bebe seu whisky.
É no silêncio que Arthur fuma seu charuto.
É no silêncio que Arthur retoma o fôlego.
É no silêncio que Arthur fica surdo pelos gritos da sua alma.