domingo, 15 de maio de 2022

Passa o tempo

Uma pessoa me fala que o dia passa muito rápido, já outra que esse mesmo dia demora para passar. O dia é o mesmo para ambos, faça chuva ou faça Sol. As nuvens continuam a correr pela imensidão azul que cobre nossas cabeças. Os pássaros continuam voando de árvore em árvore em busca de conquistar mais um dia de vida. Nas ruas, carros passam em constante fluxo, cada um com suas histórias, seus amores, medos, objetivos. Cada um com o seu TEMPO.

Quantos segundos tem um minuto? Quantos minutos tem uma hora? Quantas horas tem um dia? Para a pessoa focada em alcançar um determinado objetivo a resposta é: poucos. Já para a outra pessoa, que anseia por encontrar alguém, que sente saudade e cria inúmeras situações imaginárias para poder falar tudo o que seu coração grita para exorcizar, a resposta é o oposto. Segundos viram minutos, minutos viram horas, horas viram dias.

Qual a imensidão do seu segundo?

Quantos mundos você já criou em seus pensamentos para conversar com aquela pessoa especial e poder falar tudo o que sente? Quantas foram as reações diversas que sua mente fez com que ela tivesse? Pare e pense. E assim se passaram apenas alguns segundos para outra pessoa qualquer, mas não para você.


terça-feira, 10 de maio de 2022

Coralina

Coralina era doce como o perfume das flores, dançava em meio aos campos de braços abertos girando em direção ao céu. Seu cabelo cor de fogo incendiava as folhas secas que o vento tirava para dançar. Seu espírito era tão único, tão singular, que me encantava a cada volta em seu próprio eixo.

Tal existência parecia flutuar entre os próprios passos. Seu sorriso roubava todas as atenções, ofuscando qualquer sentimento negativo em meu ser. Ali fiquei por algum tempo, contemplando a magnificência daquele pequeno momento no paraíso. Até que Coralina parou de costas para mim e, com uma leve inclinação de seu pescoço, me olhou por cima do ombro.

Céus, seu olhar atingiu diretamente o fundo de minha alma. O impacto foi brutalmente sentido por todo o meu corpo, corpo que adormeceu no mesmo instante, meu espírito havia se separado da carne. Fui atropelado por um sentimento que não me deixava dúvidas, eu a amava.

Um sorriso bobo pulou do meu rosto, meus olhos estavam perdidos em cada detalhe daquela garota escondida atrás de seu próprio ombro. O perfume daqueles longos cabelos chamuscados arrancava todo e qualquer pensamento que ousava invadir seu reinado absoluto. Um doce aroma de frutas vermelhas ecoava dentro de minhas vias respiratórias e causava um estrago inigualável.

Fui em direção à ela, passos lentos, ainda receosos e a abracei sutilmente. Suas mãos acariciavam meus braços enquanto olhava nos meus olhos. Não dizia uma palavra, embora nenhuma conseguiria descrever o sentimento mútuo ali presente. Apertei meus braços contra seu corpo e pousei minha cabeça no seu ombro direito. Um longo suspiro tomou conta dos segundos posteriores.

Coraline ergueu a mão esquerda em direção à minha cabeça e começou a acariciar meu cabelo. Ah, como eu gostaria que aquele momento fosse eterno! Ergui um pouco a cabeça, apoiando meu queixo então em seu ombro e disse:

- Eu te amo, por Deus, como eu te amo…

No mesmo instante, Cora saiu dos meus braços e ficou de frente para mim. Sua mão acariciava a maçã do meu rosto, mas sua expressão havia mudado. Olhos lacrimejados tomavam o espaço ocupado pela alegria de antes. Um sorriso trêmulo e lágrimas desciam em direção ao chão. Abaixei a cabeça olhando para a grama verde sob meus pés, afastei sua doce e delicada mão de minha pele:

- Já entendi, Cora… Se cuide, tá?

Ergui a cabeça e dei, por fim, um beijo em sua testa.

Virei-me de costas e voltei a seguir o meu caminho. Um caminho chamado vida, um caminho que me levaria para lugares inimagináveis. Um caminho onde o ponto final é desconhecido.


Um caminho feito para ser seguido só.


domingo, 8 de maio de 2022

30 minutos

Lembro-me da primeira vez que conversei com Sophia, uma leve garoa cobria o céu e dava brilho às ruas de uma pequena cidade do interior de São Paulo. Estávamos parados em frente ao restaurante esperando nossas caronas para irmos embora. Um doce perfume exalava de seu sobretudo verde musgo, uma mistura de lavanda com cedro e notas de baunilha - Digo isso, pois sempre gostei de me aventurar nos detalhes dos perfumes, acredito que falam muito da personalidade de cada um.

Seus olhos possuíam uma cor esverdeada e seu cabelo liso era negro como a noite, por um breve momento, entre uma luz e outra dos carros que ali passavam, tive a impressão de ver um leve tom azulado no mesmo. Que figura mais encantadora era aquela que permanecia do meu lado enquanto olhava o céu com preocupação.

Passaram-se quinze minutos e nada de nossas caronas.

Meus olhos, entre uma parada e outra nos ponteiros do relógio, corriam em direção aos dela. Seus olhar cruzou-se, então, com o meu e um leve sorriso desajeitado apareceu em seu rosto. Fiz questão de devolvê-lo, ainda mais sem jeito por ter sido notado - Sutileza nunca foi meu forte.

- Boa noite. Que horas são, por favor?

Surpreendido por uma voz levemente rouca porém firme que saltava de seus lábios, corri a mão sobre a manga da minha camisa e tirei-a da frente dos ponteiros. Céus, o meu nervosismo era tão evidente que causou uma curta e leve risada de canto de boca na garota que estava esperando sua carona.

- Oh, boa noite. São... 21:30. Desculpe!

- Eu que peço desculpas por tê-lo assustado.

- Não me assustou.

- Qual seu nome? Está esperando carona também, né?

- Sim. Meu nome é Eduardo. E o seu?

- Sophia, muito prazer.

- Será que essa chuva vai aumentar, hein? (Céus, que jeito terrível o meu de tentar iniciar um assunto).

- Espero que não.

Aparentemente ela também não era boa em conversar, ou simplesmente não estava afim. Não queria forçar um diálogo e parecer rude. Seu olhar era profundo, como se analisasse todos os movimentos dos que estavam à sua volta. Os detalhes da sua personalidade séria eram evidenciados na sua forma de agir, olhar, andar e gesticular.

Colocava as mãos nos bolsos do sobretudo enquanto olhava para seus coturnos, balançando na ponta dos pés - Para mim, um claro sinal de impaciência.

- Você é daqui? - Perguntei.

- Não. Na verdade... sou e não sou.

- Como assim?

- Nasci aqui, mas atualmente moro em Ohio, nos Estados Unidos. Cheguei há uma semana a trabalho.

- Entendo. Estava com saudades do Brasil?

- Sim e não. Tenho algumas lembranças não tão legais daqui, mas senti muita falta dessa sociabilidade que o Brasil tem. Posso contar nos dedos de uma mão quantas vezes algum americano puxou assunto comigo enquanto esperava uma carona como agora. E você?

- Por enquanto moro aqui.

- Por enquanto?

- Sim. Estou esperando uma vaga para trabalhar em Quebec. Já visitou o Canadá?

- Não, fiquei sabendo que as pessoas lá são mais frias ainda. Talvez, com sua ida, minha percepção acabe mudando. Pelo menos sei que vai ter uma pessoa disposta a conversar lá.

- Hahaha, obrigado, eu acho. Poderia me passar seu telefone? Gostei muito de conversar contigo.

- Certo, anota aí.

Anotei o número no celular e o guardei. Por um curto tempo todas as minhas ideias de assunto foram por água abaixo. A cada segundo que passava, meu desespero aumentava: O que eu deveria falar?. Percebi novamente suas mãos nos bolsos e tive a impressão de que não era impaciência, mas sim frio que Sophia estava sentindo.

- Muito frio?

- Um pouco. Não esperava essa reviravolta no tempo, confesso.

- Entendo.

Sem pensar duas vezes, peguei minha jaqueta e a coloquei por cima dos seus ombros. Espantada, tirou a mão direita do bolso e segurou minha jaqueta para que ela não caísse.

- Obrigada.

Seu jeito duro me encantava. Acredito que sua confiança não deveria ser fácil de se conquistar e isso era nítido na forma como seu olhar penetrava minha alma, era como se questionasse quais as minhas intenções entre um reflexo e outro das luzes dos carros que passavam na rua. Tratei de responder aquele olhar com um sorriso amigável, afinal, gostaria de conhecê-la melhor, descobrir os mistérios que se escondiam no labirinto de sua personalidade.

Vinte minutos se passaram até que o carro de Sophia finalmente chegou. Enquanto ia em direção à ele parou por um instante e colocou a mão nos ombros novamente, puxando a jaqueta que estava nos ombros.

- Nossa, quase me esqueci.

- Não, pode ir com ela.

- Mas é sua.

- Agora ela é um motivo para nos encontrarmos de novo, talvez ela pudesse virar um café em alguma dessas tardes, o que acha?

Sem esboçar sorriso, seus olhos apertaram meu coração. Tive a certeza de que receberia um não como resposta. A chuva estava quente comparada à temperatura de minha alma, talvez eu tenha colocado tudo a perder por ter sido afobado demais. Deus, por que falei aquilo?

- É, você tem razão. Muito obrigada pela gentileza. Até outro dia, então?

O ar voltou a correr em meus pulmões.

- Certo, tenho seu número. Te mando mensagem amanhã e combinamos.

- Vou esperar.

Seu carro partiu, enquanto um brilho bobo pairava sobre minha feição. Quem me via, naquele momento, via na verdade uma criança que acabara de ganhar doces. Céus, o que estava acontecendo? Há anos que eu não me sentia daquela forma!

Passaram-se poucos minutos e minha carona também chegara. Entrei no carro e, após alguns quarteirões, levei a mão no bolso para pegar o celular e avisar a portaria do prédio que deixasse o portão aberto, pois não queria tomar mais chuva. Procurei em todos os bolsos e o frio na espinha voltara ao meu corpo no mesmo instante.

Havia deixado meu celular na jaqueta.

quarta-feira, 4 de maio de 2022

Gato Preto

Beatrice voltava para casa,  um dia como qualquer outro em que chegaria cansada do trabalho. Seu caminhar evidenciava o stress de não gostar do que fazia, não era feliz. Morava duas ruas após o único cemitério da pequena cidade em que nascera. Vestia um sobretudo preto por cima do uniforme de recepcionista e, em seu ombro esquerdo, uma bolsa da mesma cor e de tamanho mediano. Seu salto alto constantemente questionava o resquício de energia que sobrava para seu equilíbrio, aquele realmente tinha sido um dia e tanto.

As ruas eram de paralelepípedos grandes e velhos, com pequenas vegetações saindo dentre os vãos criados pelo passar das décadas. As calçadas, em muitas partes já quebradas, pediam socorro, clamando pela atenção da prefeitura. Poucas árvores traziam cor para o ambiente.

As casas, antigas como o bairro todo em si, já estavam apagadas devido à hora de saída de seu expediente. Algumas com muros, outras sem, muros inacabados ou simplesmente incompletos por conta das condições financeiras dos moradores. Simplicidade nítida em todos os aspectos.

Durante a caminhada via gatos e cachorros soltos, revirando os lixos em busca de alimento. Animais que já estavam acostumados com o passar das pessoas e que sequer olhavam para as mesmas. Beatrice olhava para cada animal solto nos braços do mundo, daquele pequeno mundo por onde voltava para casa.

Um gato sempre lhe chamava a atenção, de pelagem negra como a noite, cujos olhos pareciam duas estrelas brilhando em sua direção. Não era um gato estranho, já estava familiarizada com ele, porém, naquele dia, naquele exato dia, seus olhos pareciam penetrar a alma da garota. Lá estava ele, sentado em cima do muro do cemitério, no mesmo lugar de sempre, com uma postura imponente, como se guardasse os outros animais ou seja lá quem estivesse por ali.

A garota sentiu um aperto no peito, o que estava acontecendo naquele dia? As ruas, casas, pedras, calçadas, os animais, tudo estava do mesmo jeito, inclusive aquele gato preto.

- Boa noite, bichano. - Disse Beatrice.

O gato sutilmente mexeu sua cauda, como se estivesse acenando em resposta ao cumprimento. Não deu qualquer sinal de querer soltar um miado sequer. Seu olhar era frio, sereno, como se estivesse esperando um leve deslize para agir. Suas garras, guardadas, afiadas, anseavam por sentir o calor daquele líquido rubro que corria pelo corpo da garota. Estava aguardando a sua hora, a hora em que sentaria sobre a lápide de concreto com o nome de Beatrice e dormiria o sono da eternidade junto da pobre garota. Pelo menos era isso que passava pela sua cabeça naquele momento.

Conforme ia se aproximando do gato para cruzar o seu caminho, a garota teve a leve impressão de que ele estava muito maior do que na noite anterior. Ao passar próxima ao muro, olhando para cima, os olhos daquele felino a acompanhavam, um passo após o outro. Beatrice sentiu vontade de gritar por socorro, sentia sua alma queimando e tentando escapar pela sua garganta, junto de seu coração que já estava em um ritmo assustadoramente acelerado. O que diabos estava acontecendo ali? Quem, ou melhor, o quê era aquele maldito gato?

Sentiu receio, pela primeira vez, em virar as costas para ele. Entre um passo e outro, uma eternidade se passou em seus pensamentos. Cenas grotescas tomavam conta da sua imaginação, enquanto lágrimas tentavam pular pelo canto de seus olhos. Sentiu saudade de sua mãe, de seu pai, e até mesmo do cachorro que a esperava em casa naquele dia. Pensou em se despedir, mesmo que na sua mente, de todos aqueles que amava.

Após dois ou três passos, respirou fundo e resolveu olhar para trás. Seus olhos percorreram o muro e lá estava o gato, do mesmo jeito, com os mesmos olhos maquiavélicos penetrando seu peito e atingindo diretamente o coração.

- Por favor, não me leve...

Mais alguns passos enquanto tentava se acalmar respirando lentamente e forçando a ideia de que realmente era apenas um gato, era apenas o gato preto que via todos os dias.

"Que loucura, onde já se viu ficar com medo do gato que eu vejo todo dia? O que está acontecendo comigo hoje? Realmente o trabalho está me afetando mais do que eu imaginava."

Conforme foi se acalmando, decidiu olhar para trás novamente, tentando confirmar para si que realmente não tinha nada demais. Assim que os olhos percorreram novamente o muro, porém mais certeiros na direção em que o felino estava, não o encontraram. Sem gato, sem barulho, sem qualquer sinal de vida.

- Nossa, eu aqui me tremendo toda e com certeza o gato estava com mais medo de mim do que eu dele! Hahaha

Beatrice seguiu o quarteirão, agora mais tranquila, afinal, era só um gato. Pegou o celular para ver as horas, viu uma mensagem aqui, outra ali, e guardou-o novamente. De repente, escutou levemente um miado, distante, quase inaudível. Olhou para trás procurando o gato na calçada, sem sucesso. Ao virar-se novamente para continuar seu caminho, notou uma pequena sombra em cima do muro mais adiante. Lá estava ele, os mesmos olhos, a mesma postura, o mesmo demônio que insistia em levá-la naquela noite de verão. Ao vê-lo, a garota tentou gritar com todas as forças que ainda restava.

Instantaneamente acorda com o segundo despertador, atrasada para mais um dia de trabalho. Sua respiração ofegante se recupera após um breve momento, seu coração acelerado vai se acalmando a medida em que se dá conta de que tudo não teria passado de um pesadelo.

Beatrice jogou sua coberta de lado e foi em direção ao banheiro. Ao abrir a porta sentiu uma leve ardência na pele do pescoço e um pequeno, ou talvez pensasse que fosse, detalhe ao lado do sanitário:

Uma caixa de areia.