Ali caminhava em meu lugar favorito. Um gramado de onde gigantescas araucárias buscavam tocar os céus. O céu, repleto de nuvens escuras, parecia retribuir todo o esforço e vontade com que aquelas magníficas árvores procuravam-no, ali estavam de mãos dadas. Próximo ao centro daquele imenso paraíso havia uma pequena árvore, diferente das demais, um bugreiro, que parecia admirar sua copa no reflexo de um grande lago. Aquele era meu ponto de refúgio, do dia, do mundo, da vida.
Ah, e lá estava você, sentada embaixo daquela sombra com um vestido preto, tênis e um livro apoiado de lado em sua perna. Seus olhos quebraram, naquele momento, toda e qualquer defesa que criei ao longo dos anos, um olhar que desarmou-me completamente, deixando-me atônito. Naquele momento, naquele exato momento, descobri que o amor poderia morar até mesmo em um singelo brilho de olhar.
Os trovões que ecoavam nos céus nos lembravam de algo parecido com uma sinfonia de Beethoven. E essa, especificamente, é a lembrança mais bela de todas: seus cabelos compridos passavam bem em frente ao seu rosto, mas não tiravam seu foco: meu coração. O perfume que exalava da tua pele preenchia um vazio que andava comigo há muito, muito tempo. Um sorriso acompanhado de uma das suas manias que eu mais amava: franzir a sobrancelha. Pelos deuses, como eu amava sua cara de dúvida ou indignação quando franzia as sobrancelhas!
Como eu gostaria de passar a eternidade naquele lago, ouvindo a doce sinfonia dos trovões, sentindo o perfume dos seus cabelos e olhando diretamente no fundo da sua alma, ou daquela persona que você criou ali, na beira do lago. Eu amava cada detalhe seu, cada mísero detalhe de sua existência.
Após um curto período de tempo, a tempestade chegou e fomos embora, cada um seguindo o seu caminho, deixando para trás lembranças de um encontro no refúgio.
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