domingo, 13 de fevereiro de 2022

Caroline e Gabriel

 

            Caroline, morava na praia.

            Gabriel, paulistano, estava só de férias com sua família.

       Dois nomes, duas personalidades. Um único lugar. Gabriel não sabia, mas naquela tarde ensolarada de sábado encontraria em meio aos grãos que cobriam a praia de Balneário o amor de sua vida. Caroline estava saindo da água, uma prancha embaixo do seu braço esquerdo definia muito sobre seu cotidiano. Afinal, ganhava dinheiro ensinando como parar em cima daquele objeto pontudo e cuja estabilidade era ausente.

            Uma correntinha dourada e delicada cobria seu tornozelo direito. No seu pulso uma fina tira de couro desgastado completava uma volta em sua pele. Uma leve ajeitada em seu cabelo ondulado e castanho claro era mais que suficiente para chamar a atenção. Sonhava em sair dali por mais que aquele fosse seu dia a dia, sempre quis saber como era morar em uma cidade grande como São Paulo.

            Gabriel só queria voltar para sua cidade, sentia falta do som dos metrôs, da multidão correndo para não se atrasar, das buzinas e daqueles enormes arranha-céus que faziam parte da grande selva de pedra. Pensava que nunca encontraria alguém que combinasse com seus gostos bem ali, em uma praia.

            O Sol castigava qualquer um que ousasse sair de baixo de seu guarda-sol. A areia escaldava os pés, esquentando até as toalhas estiradas sobre ela.

            - Preciso beber algo.

            - Aproveita e traz uma cerveja pra mim, Biel – Disse sua mãe.

            - Tá, mas da próxima é você quem vai.

            - Só vai logo, moleque.

            Tinha apenas um caminho para seguir, deixando para trás um rastro na areia. Enquanto caminhava em direção ao bar, observava aquelas pessoas felizes e queimadas pela grande estrela que brilhava no céu.

            - Como esse povo consegue se divertir assim? Nossa, que Sol infernal. Pelo menos o bar tá razoavelmente perto da gente.

            - Me vê um suco de abacaxi?

            - Com gelo e açúcar?

            - Sim, quanto to devendo?

            - Olha, foram três sucos de morango na semana passada, mais dois de abacaxi essa semana, pra você eu fecho vintão tudo.

            - Beleza!

            Ali, de repente, estava a garota surfista apreciando aquele suco enquanto a mão direita buscava uma nota já gasta pelo uso excessivo para pagar Maurício, o dono do bar. O garoto se aproximou enquanto andava olhando para o seu celular. Caroline, com o suco nas mãos, vira rapidamente e acaba esbarrando no garoto.

            - Nossa, me desculpa.

O garoto mal olha para cima e responde friamente:

- Fica em paz.

A surfista, irritada com aquela falta de empatia, questiona:

- Você pode pelo menos olhar pra minha cara? O que tem de tão importante nesse celular?

Gabriel solta um suspiro e responde enquanto sua cabeça se ergue lentamente para encarar aquela moça que esbarrou em seu ombro:

- Minha casa. Eu nunca mais vou te ver mesmo, por que eu me preocuparia em olhar pra sua c...

Assim que seus olhos encontraram os dela o garoto travou, sua fala estava tomando o ritmo oposto das batidas de seu coração.

- Você não é daqui, né?

- Não, sou de São Paulo. E você?

- Nasci aqui, vivo aqui. Como é lá?

- Em São Paulo? Normal. Prédios, um trânsito infernal, pessoas correndo para todos os lados. Aqui não fica muito atrás, mas mesmo assim lá é uma loucura.

Os olhos da garota se encantavam com a descrição. Para ela, aquele era um novo mundo, por mais que Balneário ainda fosse enorme.

- Você devia visitar lá qualquer hora.

Caroline sorriu.

- Impossível, não tenho alguém que conheço lá. Mas quem sabe um dia a gente não se trombe novamente, só que dessa vez em SUA casa, né?

Gabriel ficou sem jeito.

- Anota meu número. Agora você conhece!

Trocaram os números, a garota voltou para a praia enquanto ele voltava para sua família.

O tempo passava e os dois conversavam cada dia mais. A distância era um simples detalhe entre as notificações que pipocavam nos celulares. Perguntavam coisas bobas, como músicas favoritas, filmes, costumes, e também falavam sobre como o dia de cada um foi. Gabriel se parecia muito com Caroline, por mais que vivessem em mundos totalmente diferentes.

Muitas músicas combinavam, outras nem tanto. Quando uma referência de filme era jogada naquela pequena janela de conversa o outro a completava. Estavam encantados por terem conhecido alguém tão compatível com seus gostos e jeitos. Gabriel não parava de pensar na garota um segundo sequer, e ali começou a sentir saudade da praia.

Os meses passaram e decidiram se encontrar. A surfista iria de encontro ao garoto da grande selva de pedra. Os segundos corroíam até sua chegada, a cada momento em que o transporte chegava mais próximo de seu destino, um novo frio na barriga tomava conta de Caroline. Sorrisos bobos saltavam pelo ar, as borboletas em seu estômago já estavam cansadas de tanto voar, precisavam de fôlego para continuarem o baile mais lindo que um coração poderia sentir.

Existem coisas que o tempo não diz, existem coisas que as conversas não mostram, existem sentimentos que nem o maior poeta dessa vida conseguiria expressar usando apenas as meras palavras criadas pelo homem. Existem sentimentos que nem o coração mais forte conseguiria suportar e dimensionar.

Finalmente a garota chegou ao seu destino. Desceu do ônibus procurando Gabriel em cada canto, em cada rosto em meio à multidão. E lá estava ele, com um gorro preto e um moletom, pois fazia frio em São Paulo. Embaixo de seu braço esquerdo levava um outro moletom para ela, pois não estava acostumada com o clima da grande metrópole.

Enquanto ela corria em sua direção, Gabriel andava calmamente, aproveitando cada passo e sorrindo com a importância e grandiosidade daquele momento único a ser vivido. Um abraço longo, seguido de lágrimas, os dois corações se tocavam pela primeira vez, os batimentos viraram um só, suas respirações sincronizavam-se em um baile onde até todos aqueles que estavam no salão pararam para assistir à dança.

Seus olhos se cruzaram enquanto os braços de Caroline pairavam sobre os ombros do garoto.

- Eu não acredito que a gente finalmente se viu novamente, Biel.

- Contei os segundos pra esse momento acontecer, Carol.

- E esse gorro aí? Não tá tão frio assim, seu doido!

Sorrindo, a garota puxa o gorro da cabeça de Gabriel. Enquanto o gorro caía de sua cabeça, seus olhos tocavam o chão com lágrimas de uma notícia que definiria uma história de amor.

- Ué, Biel. Cadê seu cabelo?

- Carol... – Gabriel aperta forte as mãos de Caroline. Preciso te contar uma coisa... Saiba que você me fez gostar de praia, sentir saudade da areia. Saiba também que todas as palavras que eu te disse até hoje foram verdadeiras, e que eu te amei sem nem precisar tocar seus lábios pela primeira vez. Você foi a coisa mais incrível que já aconteceu em toda a minha vida, e eu nunca vou deixar de te amar, nem aqui, nem depois.

- Biel? Não... Não, não, não, não... A gente vai superar isso! Hoje em dia temos médicos incríveis, não me assusta desse jeito, Biel. Por favor...

- Eu te amo, Carol. Vamos conhecer a cidade, tá? Tem muita coisa que eu quero te mostrar!

Gabriel mostrou sua cafeteria favorita, o parque, as lojas, até o metrô. Cada segundo ao seu lado, para Caroline, era extremamente valioso. Lágrimas caíam entre as paradas, entre os abraços, entre os momentos que passavam juntos enquanto o Sol tomava seu caminho.

- Biel?

- Sim?

- É tão grave assim?

- Sim.

- Quanto tempo?

- Três meses, talvez quatro.

- Não...

Um abraço forte encerra aquela pequena conversa enquanto o metrô chegava em sua última parada. Gabriel havia deixado um lugar especial para o final. Sabia que Caroline gostava da natureza e pensava naquele lugar para pedi-la em namoro. Sonhava com isso e pensava em cada detalhe para aquele momento tão singular.

- É aqui.

- Uau...

Um pequeno jardim em meio à grande selva de pedra. Um pequeno pergolado de madeira rústica cobria um velho banco de madeira, enquanto as plantas percorriam por todo o espaço. No chão, pequenas pedrinhas faziam a música de fundo enquanto mexiam os pés. Gabriel sentou ali, de um lado do banco. Caroline sentou na outra ponta, enquanto suas mochilas separavam os dois amantes.

- Seria aqui que tudo aconteceria.

- Como assim?

O garoto puxa de dentro da bolsa uma pequena caixinha preta e entrega nas mãos da surfista.

- Isso é um anel?

- Sim. Eu ia te pedir em namoro hoje... Mas semana passada veio a notícia, o resultado dos exames, e tudo foi muito rápido, Carol... Me perdoa.

A garota, em prantos, pula por cima das mochilas e abraça o menino da cidade grande.

- Eu aceito! Eu aceito!

Assustado, lágrimas caem de seus olhos.

- Mas eu não tenho muito tempo, meu amor... Eu quero te ver feliz, quero que seja feliz com alguém com quem possa ter planos futuros. Só Deus sabe o quanto eu queria que tudo isso fosse mentira. Como eu queria poder planejar viagens com você, acordar primeiro só pra poder te ver dormir, preparar um café da manhã e esperar você sair do nosso quarto com uma camiseta larga minha. Como eu queria poder viver uma vida com você, Carol.

O tempo passou e, apesar da distância, as alianças permaneceram juntas. Cada dia era único, cada segundo era imortal, assim como o amor de Gabriel e Caroline. As conversas continuavam e o tempo que passavam juntos valia cada segundo.

A saúde do garoto piorava constantemente, até que precisou ser internado. Ao seu lado, dormindo na poltrona com uma leve coberta estava ela. Gabriel estava sob medicamentos fortes, com dores, porém em seu peito morava toda a vontade de viver uma vida ao lado de Carol. A vida realmente era cruel. Queria voltar à praia, largar o celular assim que entrasse naquele bar novamente.

Era madrugada, o médico entra no quarto, toca os ombros de Caroline e acena negativamente com a cabeça, enquanto seus olhos se enchem de lágrimas. Caroline, assustada, pula da poltrona e vai em direção à Gabriel, que já não apertava mais sua mão. Cai em prantos, seu mundo desmoronava naquele momento, seu coração estava dilacerado com aquele longo apito das máquinas que preenchiam o quarto.

Após um tempo ao seu lado, já sem forças para aceitar a sua partida, Carol abraça seu amado e beija a sua testa.

- Eu disse que ia continuar cuidando de você.

Em uma segunda-feira chuvosa, as notificações do celular dela cessaram para sempre.

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