Caroline, morava na praia.
Gabriel, paulistano, estava só de
férias com sua família.
Dois nomes, duas personalidades. Um
único lugar. Gabriel não sabia, mas naquela tarde ensolarada de sábado
encontraria em meio aos grãos que cobriam a praia de Balneário o amor de sua
vida. Caroline estava saindo da água, uma prancha embaixo do seu braço esquerdo
definia muito sobre seu cotidiano. Afinal, ganhava dinheiro ensinando como
parar em cima daquele objeto pontudo e cuja estabilidade era ausente.
Uma correntinha dourada e delicada
cobria seu tornozelo direito. No seu pulso uma fina tira de couro desgastado
completava uma volta em sua pele. Uma leve ajeitada em seu cabelo ondulado e
castanho claro era mais que suficiente para chamar a atenção. Sonhava em sair
dali por mais que aquele fosse seu dia a dia, sempre quis saber como era morar
em uma cidade grande como São Paulo.
Gabriel só queria voltar para sua
cidade, sentia falta do som dos metrôs, da multidão correndo para não se
atrasar, das buzinas e daqueles enormes arranha-céus que faziam parte da grande
selva de pedra. Pensava que nunca encontraria alguém que combinasse com seus
gostos bem ali, em uma praia.
O Sol castigava qualquer um que
ousasse sair de baixo de seu guarda-sol. A areia escaldava os pés, esquentando
até as toalhas estiradas sobre ela.
- Preciso beber algo.
- Aproveita e traz uma cerveja pra
mim, Biel – Disse sua mãe.
- Tá, mas da próxima é você quem
vai.
- Só vai logo, moleque.
Tinha apenas um caminho para seguir,
deixando para trás um rastro na areia. Enquanto caminhava em direção ao bar,
observava aquelas pessoas felizes e queimadas pela grande estrela que brilhava
no céu.
- Como esse povo consegue se
divertir assim? Nossa, que Sol infernal. Pelo menos o bar tá razoavelmente perto
da gente.
- Me vê um suco de abacaxi?
- Com gelo e açúcar?
- Sim, quanto to devendo?
- Olha, foram três sucos de morango
na semana passada, mais dois de abacaxi essa semana, pra você eu fecho vintão
tudo.
- Beleza!
Ali, de repente, estava a garota
surfista apreciando aquele suco enquanto a mão direita buscava uma nota já
gasta pelo uso excessivo para pagar Maurício, o dono do bar. O garoto se
aproximou enquanto andava olhando para o seu celular. Caroline, com o suco nas
mãos, vira rapidamente e acaba esbarrando no garoto.
- Nossa, me desculpa.
O garoto mal olha para cima e responde
friamente:
- Fica em paz.
A surfista, irritada com aquela falta de
empatia, questiona:
- Você pode pelo menos olhar pra minha
cara? O que tem de tão importante nesse celular?
Gabriel solta um suspiro e responde
enquanto sua cabeça se ergue lentamente para encarar aquela moça que esbarrou em
seu ombro:
- Minha casa. Eu nunca mais vou te ver mesmo,
por que eu me preocuparia em olhar pra sua c...
Assim que seus olhos encontraram os dela
o garoto travou, sua fala estava tomando o ritmo oposto das batidas de seu
coração.
- Você não é daqui, né?
- Não, sou de São Paulo. E você?
- Nasci aqui, vivo aqui. Como é lá?
- Em São Paulo? Normal. Prédios, um
trânsito infernal, pessoas correndo para todos os lados. Aqui não fica muito
atrás, mas mesmo assim lá é uma loucura.
Os olhos da garota se encantavam com a
descrição. Para ela, aquele era um novo mundo, por mais que Balneário ainda
fosse enorme.
- Você devia visitar lá qualquer hora.
Caroline sorriu.
- Impossível, não tenho alguém que
conheço lá. Mas quem sabe um dia a gente não se trombe novamente, só que dessa vez
em SUA casa, né?
Gabriel ficou sem jeito.
- Anota meu número. Agora você conhece!
Trocaram os números, a garota voltou
para a praia enquanto ele voltava para sua família.
O tempo passava e os dois conversavam
cada dia mais. A distância era um simples detalhe entre as notificações que
pipocavam nos celulares. Perguntavam coisas bobas, como músicas favoritas,
filmes, costumes, e também falavam sobre como o dia de cada um foi. Gabriel se
parecia muito com Caroline, por mais que vivessem em mundos totalmente
diferentes.
Muitas músicas combinavam, outras nem
tanto. Quando uma referência de filme era jogada naquela pequena janela de
conversa o outro a completava. Estavam encantados por terem conhecido alguém
tão compatível com seus gostos e jeitos. Gabriel não parava de pensar na garota
um segundo sequer, e ali começou a sentir saudade da praia.
Os meses passaram e decidiram se
encontrar. A surfista iria de encontro ao garoto da grande selva de pedra. Os
segundos corroíam até sua chegada, a cada momento em que o transporte chegava mais
próximo de seu destino, um novo frio na barriga tomava conta de Caroline.
Sorrisos bobos saltavam pelo ar, as borboletas em seu estômago já estavam
cansadas de tanto voar, precisavam de fôlego para continuarem o baile mais lindo
que um coração poderia sentir.
Existem coisas que o tempo não diz,
existem coisas que as conversas não mostram, existem sentimentos que nem o
maior poeta dessa vida conseguiria expressar usando apenas as meras palavras criadas
pelo homem. Existem sentimentos que nem o coração mais forte conseguiria
suportar e dimensionar.
Finalmente a garota chegou ao seu
destino. Desceu do ônibus procurando Gabriel em cada canto, em cada rosto em
meio à multidão. E lá estava ele, com um gorro preto e um moletom, pois fazia
frio em São Paulo. Embaixo de seu braço esquerdo levava um outro moletom para
ela, pois não estava acostumada com o clima da grande metrópole.
Enquanto ela corria em sua direção,
Gabriel andava calmamente, aproveitando cada passo e sorrindo com a importância
e grandiosidade daquele momento único a ser vivido. Um abraço longo, seguido de
lágrimas, os dois corações se tocavam pela primeira vez, os batimentos viraram
um só, suas respirações sincronizavam-se em um baile onde até todos aqueles que
estavam no salão pararam para assistir à dança.
Seus olhos se cruzaram enquanto os braços
de Caroline pairavam sobre os ombros do garoto.
- Eu não acredito que a gente finalmente
se viu novamente, Biel.
- Contei os segundos pra esse momento acontecer,
Carol.
- E esse gorro aí? Não tá tão frio
assim, seu doido!
Sorrindo, a garota puxa o gorro da
cabeça de Gabriel. Enquanto o gorro caía de sua cabeça, seus olhos tocavam o
chão com lágrimas de uma notícia que definiria uma história de amor.
- Ué, Biel. Cadê seu cabelo?
- Carol... – Gabriel aperta forte as
mãos de Caroline. Preciso te contar uma coisa... Saiba que você me fez gostar
de praia, sentir saudade da areia. Saiba também que todas as palavras que eu te
disse até hoje foram verdadeiras, e que eu te amei sem nem precisar tocar seus
lábios pela primeira vez. Você foi a coisa mais incrível que já aconteceu em
toda a minha vida, e eu nunca vou deixar de te amar, nem aqui, nem depois.
- Biel? Não... Não, não, não, não... A
gente vai superar isso! Hoje em dia temos médicos incríveis, não me assusta
desse jeito, Biel. Por favor...
- Eu te amo, Carol. Vamos conhecer a
cidade, tá? Tem muita coisa que eu quero te mostrar!
Gabriel mostrou sua cafeteria favorita,
o parque, as lojas, até o metrô. Cada segundo ao seu lado, para Caroline, era
extremamente valioso. Lágrimas caíam entre as paradas, entre os abraços, entre
os momentos que passavam juntos enquanto o Sol tomava seu caminho.
- Biel?
- Sim?
- É tão grave assim?
- Sim.
- Quanto tempo?
- Três meses, talvez quatro.
- Não...
Um abraço forte encerra aquela pequena
conversa enquanto o metrô chegava em sua última parada. Gabriel havia deixado
um lugar especial para o final. Sabia que Caroline gostava da natureza e
pensava naquele lugar para pedi-la em namoro. Sonhava com isso e pensava em
cada detalhe para aquele momento tão singular.
- É aqui.
- Uau...
Um pequeno jardim em meio à grande selva
de pedra. Um pequeno pergolado de madeira rústica cobria um velho banco de
madeira, enquanto as plantas percorriam por todo o espaço. No chão, pequenas
pedrinhas faziam a música de fundo enquanto mexiam os pés. Gabriel sentou ali,
de um lado do banco. Caroline sentou na outra ponta, enquanto suas mochilas
separavam os dois amantes.
- Seria aqui que tudo aconteceria.
- Como assim?
O garoto puxa de dentro da bolsa uma
pequena caixinha preta e entrega nas mãos da surfista.
- Isso é um anel?
- Sim. Eu ia te pedir em namoro hoje...
Mas semana passada veio a notícia, o resultado dos exames, e tudo foi muito
rápido, Carol... Me perdoa.
A garota, em prantos, pula por cima das
mochilas e abraça o menino da cidade grande.
- Eu aceito! Eu aceito!
Assustado, lágrimas caem de seus olhos.
- Mas eu não tenho muito tempo, meu
amor... Eu quero te ver feliz, quero que seja feliz com alguém com quem possa
ter planos futuros. Só Deus sabe o quanto eu queria que tudo isso fosse mentira.
Como eu queria poder planejar viagens com você, acordar primeiro só pra poder
te ver dormir, preparar um café da manhã e esperar você sair do nosso quarto
com uma camiseta larga minha. Como eu queria poder viver uma vida com você, Carol.
O tempo passou e, apesar da distância,
as alianças permaneceram juntas. Cada dia era único, cada segundo era imortal,
assim como o amor de Gabriel e Caroline. As conversas continuavam e o tempo que
passavam juntos valia cada segundo.
A saúde do garoto piorava
constantemente, até que precisou ser internado. Ao seu lado, dormindo na poltrona
com uma leve coberta estava ela. Gabriel estava sob medicamentos fortes, com
dores, porém em seu peito morava toda a vontade de viver uma vida ao lado de
Carol. A vida realmente era cruel. Queria voltar à praia, largar o celular
assim que entrasse naquele bar novamente.
Era madrugada, o médico entra no quarto,
toca os ombros de Caroline e acena negativamente com a cabeça, enquanto seus
olhos se enchem de lágrimas. Caroline, assustada, pula da poltrona e vai em
direção à Gabriel, que já não apertava mais sua mão. Cai em prantos, seu mundo
desmoronava naquele momento, seu coração estava dilacerado com aquele longo
apito das máquinas que preenchiam o quarto.
Após um tempo ao seu lado, já sem forças
para aceitar a sua partida, Carol abraça seu amado e beija a sua testa.
- Eu disse que ia continuar cuidando de
você.
Em uma segunda-feira chuvosa, as
notificações do celular dela cessaram para sempre.
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