Lars vivia em uma pequena cidade no interior da Suíça. Acordava todos os dias antes dos primeiros raios de Sol para ajudar sua família na humilde fazenda em que nascera. Completava seus afazeres e se preparava para ir à escola. Não tinha muitos amigos, afinal, quem gostaria de ter um caipira como amigo?
Não ligava muito para isso, desde pequeno acostumou-se com a solidão. Fez dela uma amiga. Porém, existia algo diferente naquele garoto que crescera junto à porcos e vacas. Andava sempre com um pequeno caderno de anotações onde escrevia poemas que explodiam em sua cabeça. Via beleza nas coisas mais singelas da vida, mesmo estando sozinho e não tendo alguém para chamar de amigo.
Era mais uma sexta-feira, como todas as outras, e lá estava ele estudando a matéria que mais gostava, literatura, enquanto pequenas bolinhas de papel eram arremessadas em sua cabeça e um baixo murmúrio sussurrava em seu ouvido: vá cuidar dos porcos, caipira.
As carteiras cuja madeira estava velha e cheia de cicatrizes pareciam completar aquele ambiente antigo, janelas imensas cobriam as paredes de fora a fora. Ah! Sua pintura favorita! As árvores que observava por aqueles vidros gigantescos, uma pintura viva que dançava com o vento, cujo farfalhar era música para seus ouvidos. Fechava os olhos e tudo estava bem, a natureza o acalmava.
A professora, então, saiu repentinamente da sala. Após alguns segundos voltou dizendo aos alunos que tinham uma nova companheira de sala - Anasthasia. Todos ficaram encantados com aquela garota dos cabelos dourados e olhos verdes como as imponentes árvores que delimitavam a área escolar.
Lars sequer deu-se ao trabalho de levantar a cabeça para observá-la. Para ele seria apenas mais uma bolinha de papel se chocando contra seus pensamentos. Apenas mais uma sexta-feira de literatura. Quando a garota passou por ele, sentiu o perfume floral emanar de seus cabelos, aquele aroma era familiar, afinal, estava acostumado a lidar com flores e com a natureza.
A menina dos cabelos de ouro sentou-se ao seu lado, era onde estava vago, pensou. A aula continuou, junto dos autores que já se foram, junto do seu pequeno caderno de poesias.
- Pode me emprestar uma caneta?
Aquela voz pairou sobre o ar, sem respostas.
- Ei, com licença, poderia me emprestar uma de suas canetas?
Lars não estava acostumado com pessoas se direcionando à ele. Sentiu um leve e sutil puxão na manga de seu uniforme, todo amarrotado. Olhou para o lado, chocou-se com toda a vida presente na natureza em apenas um olhar. Seu coração acelerou, não sabia como reagir, não estava acostumado com aquilo.
- Desculpe, não queria te atrapalhar.
- Não é isso. Aqui, pode ficar com essa.
- Obrigada.
A garota sorriu e perguntou seu nome, automaticamente o garoto começou a olhar ao seu redor, pensando ser apenas mais uma piada de mal gosto de sua turma.
- Lars.
- Muito prazer, Lars. Acho que você já sabe, mas me chamo Anasthasia.
O garoto acenou e voltou aos estudos. Com o término da aula, ainda sem jeito, o garoto organiza seus materiais e levanta para ir embora. Seu pequeno mundo de folhas amareladas com o tempo, cobertas por poesias, acaba caindo de seus braços. Tentou imediatamente pegá-lo, mas sem sucesso, pois o mesmo já estava nas mãos da mais nova aluna de sua turma. Engoliu seco, esperando mais uma chacota, abaixou a cabeça e ouviu a doce voz emanar palavras que surpreenderam seu coração:
- Você escreve muito bem.
Rapidamente pegou o livro e se foi. Durante o caminho até a fazenda ficou imaginando um mundo totalmente diferente da sua realidade. Um mundo onde a poesia e os fios dourados dançavam ao vento, juntos das folhas verdes daquele novo olhar que cruzou o seu caminho. Uma garota como aquela nunca teria olhos para um caipira como ele, disso já estava conformado.
Enquanto se afastava da escola. Anasthasia sentou em um canteiro, aguardando a chegada de seus pais, abriu a bolsa, pegou um pequeno diário rosa e começou a escrever a poesia do improvável, do desconhecido, do misterioso.
Há quem diz que as poesias nunca se entrelaçaram, outros acreditam no mistério das entrelinhas. Para Lars, Anasthasia era inalcançável. Para ela, a simplicidade do garoto agregava beleza àqueles versos escritos com uma caligrafia trêmula e desajeitada. A poesia não liga para dinheiro, para aparência, afinal, é ela quem nos mostra a aparência por trás de cada simples olhar, a beleza das árvores imponentes que refletem no vidro de uma escola chamada vida, que transforma o farfalhar em uma sinfonia única e singular.
O tempo define cada compasso, esconde sentimentos, cria realidades que cabem em pequenas folhas de papel, amareladas com o passar do tempo, ou disfarçadas em um diário. O amor é o eterno mistério que rege cada pequena e única existência de uma grande sala de aula, onde todos sentimos, ao menos uma vez, como é estar na pele de um novo aluno.
Uma história quebrada, infinda.
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