segunda-feira, 25 de abril de 2022

Ethan

Sentado em sua poltrona, Ethan esperava pela morte pacientemente. Na sua mão direita uma taça de vinho pela metade, na esquerda um charuto já no fim. A sala estava escura, com poucos pontos de luminosidade vindos de velas que dançavam conforme a corrente de ar.

As chamas, que diminuíam e aumentavam de tamanho, desenhavam imagens diabólicas na parede da lareira que outrora estava viva. Eram os seus demônios interiores, seus maiores pesadelos, agora companheiros entre um gole e outro daquela bebida doce como o beijo do último suspiro.

À sua frente um velho livro, empoeirado pelos anos, pairava sobre a mesa de centro. Suas páginas, já amareladas, passaram por muitas histórias junto de seu dono. Seu companheiro de idade e também de memórias, imortais nos versos do autor que jazia sem vida em algum canto da Romênia.

Olhava para aquele amontoado de páginas com um certo desprezo, afinal, no fundo gostaria de ser imortal como ele. Abria um sorriso quando seus olhos percorriam os desenhos ainda presentes na parede.

O ranger de uma pesada porta de madeira ecoa pelo cômodo. Sua empregada, com metade do rosto posicionado sobre o vão, perguntava se ele realmente tinha certeza de sua decisão. Afinal, um homem rico como ele tinha muito o que aproveitar na vida.

Ethan dá de ombros e pergunta a mulher:

- Minha querida, não se preocupe com a riqueza. Você já ouviu falar de uma alegoria nomeada Totentanz?

A mulher dá de ombros e responde negativamente com a cabeça.

- Então venha aqui, vou te explicar.

Após um breve suspiro encorajador, coloca-se adentro na sala escura, passos lentos e receosos, enquanto vislumbra os desenhos projetados pelas velas.

- O que você vê na parede? Pois eu vejo uma singela dança entre luz e trevas. Totentanz, a dança macabra, é uma obra inspiradora para mim. Independentemente de sua riqueza, status, beleza, se você é alto ou baixo, bom ou mau, a dança da morte une a todos. Isso é simplesmente magnífico!

O homem já corroído pelos anos esboça uma leve empolgação enquanto se ajeita na poltrona por um breve momento, até começar a escorregar novamente e se encontrar na mesma posição de antes.

- Ah! A dança é tão linda. Eu já vivi demais, minha cara. O passar dos anos tem me presenteado com algo cujo valor é inestimável: boas lembranças.

Enquanto o homem falava, a empregada sentava-se ao seu lado, esquivando-se disfarçadamente da fumaça que pairava no ar. Pensativa, olhava em um ponto fixo, desligando-se de tudo à sua volta.

- Gostaria de dançar comigo ao som do fim?

Assentindo com a cabeça, levanta-se e põe sua mão em direção à mão de Ethan, que sorri ao ter sua resposta, soltando o resto de charuto no chão.

Naquele momento, entre o bailar das sombras maculadas sobre a lareira, a mão de sua empregada metamorfoseia-se em um pequeno frasco preto. O velho abre a tampa, pega dois comprimidos e os leva à boca junto de um último gole de vinho.

- Obrigado por me conceder uma última dança, minha velha amiga.

Ethan se encosta na poltrona com um sorriso no rosto, fecha os olhos e começa a cantarolar uma antiga música.


Suas mãos soltam a taça e o frasco, o charuto já não mais exalava fumaça. As sombras desaparecem junto do fim das velas.

Já não se ouve mais a música.


Nenhum comentário:

Postar um comentário