Sua melhor companhia se resumia em uma câmera que, através das lentes, enxergava seu próprio mundo. Morava em um apartamento antigo no sul de Los Angeles que escolhera somente pela vista da janela - décimo sétimo andar. Daquele pequeno canto chamado de "seu" podia ver a constante disputa entre os arranha-céus para decidirem qual levaria o título de mais alto.
Seu longo e liso cabelo cor de sangue caía por cima dos grandes óculos que tornavam o mundo mais nítido. Os olhos, cor de mel, ganhavam vida quando tocados pelos raios de Sol, como se naquele momento uma dança entre dois seres singulares começasse. Nos lábios um claro e sutil batom rosé tornava evidente a delicadeza de suas palavras. Leliana era única, ímpar.
Ganhava a vida tirando fotos em festas, bares, casamentos, e todos os lugares que era convidada. O dinheiro não era dos melhores mas era suficiente para ela e sua gata - Ophelia. Tinha seus rituais, como, por exemplo, preparar um café forte e doce e sentar em frente à sua janela para assistir o pôr do Sol. Ah... Aquela era a melhor parte de seus dias! Ficava encantada em como os últimos raios - já cansados - passavam pelos vãos dos prédios e desenhavam no chão imagens que aguçavam sua imaginação.
Ophelia, já acostumada com a rotina, deitava todos os dias no mesmo lugar, observando sua dona e certificando-se de que nenhum rato faria mal à ela naquele momento tão singelo.
- Até amanhã, grandão.
Com a chegada da noite, acendia um abajur de chão estrategicamente posicionado no canto de sua sala. A lâmpada possuía filamentos de carbono, não era como as padrões, proporcionando uma iluminação baixa, mas suficiente para desenhar sombras nos tijolos vermelhos que davam forma ao imóvel.
- Você está com fome, Ophelia?
A gata levanta e vai em direção ao pote, belisca alguns grãos de ração e começa a se lamber calmamente.
- Não precisava comer só porque eu falei, né? Sabe, às vezes eu acho que você me entende melhor do que as outras pessoas.
Leliana deita no sofá de couro preto próximo à luz e observa a Lua, começa a pensar em quantas pessoas, além de si, estariam olhando para ela naquele exato momento.
Perde-se nos pensamentos.
Será que amanhã descobrirá um lugar novo para fotografar?
- Esse mundo é muito louco...
Aquele era o mundo da fotógrafa, sem passado, sem futuro, apenas o presente. Leve, calmo, magnífico, efêmero.
Um brevíssimo conto sem começo nem fim, sem início nem conclusão, sem desfeches nem enigmas, mas com um ambiente calmo e relaxante, como uma leve brisa que toca o peito e logo em seguida vai embora.
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