quarta-feira, 4 de maio de 2022

Gato Preto

Beatrice voltava para casa,  um dia como qualquer outro em que chegaria cansada do trabalho. Seu caminhar evidenciava o stress de não gostar do que fazia, não era feliz. Morava duas ruas após o único cemitério da pequena cidade em que nascera. Vestia um sobretudo preto por cima do uniforme de recepcionista e, em seu ombro esquerdo, uma bolsa da mesma cor e de tamanho mediano. Seu salto alto constantemente questionava o resquício de energia que sobrava para seu equilíbrio, aquele realmente tinha sido um dia e tanto.

As ruas eram de paralelepípedos grandes e velhos, com pequenas vegetações saindo dentre os vãos criados pelo passar das décadas. As calçadas, em muitas partes já quebradas, pediam socorro, clamando pela atenção da prefeitura. Poucas árvores traziam cor para o ambiente.

As casas, antigas como o bairro todo em si, já estavam apagadas devido à hora de saída de seu expediente. Algumas com muros, outras sem, muros inacabados ou simplesmente incompletos por conta das condições financeiras dos moradores. Simplicidade nítida em todos os aspectos.

Durante a caminhada via gatos e cachorros soltos, revirando os lixos em busca de alimento. Animais que já estavam acostumados com o passar das pessoas e que sequer olhavam para as mesmas. Beatrice olhava para cada animal solto nos braços do mundo, daquele pequeno mundo por onde voltava para casa.

Um gato sempre lhe chamava a atenção, de pelagem negra como a noite, cujos olhos pareciam duas estrelas brilhando em sua direção. Não era um gato estranho, já estava familiarizada com ele, porém, naquele dia, naquele exato dia, seus olhos pareciam penetrar a alma da garota. Lá estava ele, sentado em cima do muro do cemitério, no mesmo lugar de sempre, com uma postura imponente, como se guardasse os outros animais ou seja lá quem estivesse por ali.

A garota sentiu um aperto no peito, o que estava acontecendo naquele dia? As ruas, casas, pedras, calçadas, os animais, tudo estava do mesmo jeito, inclusive aquele gato preto.

- Boa noite, bichano. - Disse Beatrice.

O gato sutilmente mexeu sua cauda, como se estivesse acenando em resposta ao cumprimento. Não deu qualquer sinal de querer soltar um miado sequer. Seu olhar era frio, sereno, como se estivesse esperando um leve deslize para agir. Suas garras, guardadas, afiadas, anseavam por sentir o calor daquele líquido rubro que corria pelo corpo da garota. Estava aguardando a sua hora, a hora em que sentaria sobre a lápide de concreto com o nome de Beatrice e dormiria o sono da eternidade junto da pobre garota. Pelo menos era isso que passava pela sua cabeça naquele momento.

Conforme ia se aproximando do gato para cruzar o seu caminho, a garota teve a leve impressão de que ele estava muito maior do que na noite anterior. Ao passar próxima ao muro, olhando para cima, os olhos daquele felino a acompanhavam, um passo após o outro. Beatrice sentiu vontade de gritar por socorro, sentia sua alma queimando e tentando escapar pela sua garganta, junto de seu coração que já estava em um ritmo assustadoramente acelerado. O que diabos estava acontecendo ali? Quem, ou melhor, o quê era aquele maldito gato?

Sentiu receio, pela primeira vez, em virar as costas para ele. Entre um passo e outro, uma eternidade se passou em seus pensamentos. Cenas grotescas tomavam conta da sua imaginação, enquanto lágrimas tentavam pular pelo canto de seus olhos. Sentiu saudade de sua mãe, de seu pai, e até mesmo do cachorro que a esperava em casa naquele dia. Pensou em se despedir, mesmo que na sua mente, de todos aqueles que amava.

Após dois ou três passos, respirou fundo e resolveu olhar para trás. Seus olhos percorreram o muro e lá estava o gato, do mesmo jeito, com os mesmos olhos maquiavélicos penetrando seu peito e atingindo diretamente o coração.

- Por favor, não me leve...

Mais alguns passos enquanto tentava se acalmar respirando lentamente e forçando a ideia de que realmente era apenas um gato, era apenas o gato preto que via todos os dias.

"Que loucura, onde já se viu ficar com medo do gato que eu vejo todo dia? O que está acontecendo comigo hoje? Realmente o trabalho está me afetando mais do que eu imaginava."

Conforme foi se acalmando, decidiu olhar para trás novamente, tentando confirmar para si que realmente não tinha nada demais. Assim que os olhos percorreram novamente o muro, porém mais certeiros na direção em que o felino estava, não o encontraram. Sem gato, sem barulho, sem qualquer sinal de vida.

- Nossa, eu aqui me tremendo toda e com certeza o gato estava com mais medo de mim do que eu dele! Hahaha

Beatrice seguiu o quarteirão, agora mais tranquila, afinal, era só um gato. Pegou o celular para ver as horas, viu uma mensagem aqui, outra ali, e guardou-o novamente. De repente, escutou levemente um miado, distante, quase inaudível. Olhou para trás procurando o gato na calçada, sem sucesso. Ao virar-se novamente para continuar seu caminho, notou uma pequena sombra em cima do muro mais adiante. Lá estava ele, os mesmos olhos, a mesma postura, o mesmo demônio que insistia em levá-la naquela noite de verão. Ao vê-lo, a garota tentou gritar com todas as forças que ainda restava.

Instantaneamente acorda com o segundo despertador, atrasada para mais um dia de trabalho. Sua respiração ofegante se recupera após um breve momento, seu coração acelerado vai se acalmando a medida em que se dá conta de que tudo não teria passado de um pesadelo.

Beatrice jogou sua coberta de lado e foi em direção ao banheiro. Ao abrir a porta sentiu uma leve ardência na pele do pescoço e um pequeno, ou talvez pensasse que fosse, detalhe ao lado do sanitário:

Uma caixa de areia.

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