Lembro-me da primeira vez que conversei com Sophia, uma leve garoa cobria o céu e dava brilho às ruas de uma pequena cidade do interior de São Paulo. Estávamos parados em frente ao restaurante esperando nossas caronas para irmos embora. Um doce perfume exalava de seu sobretudo verde musgo, uma mistura de lavanda com cedro e notas de baunilha - Digo isso, pois sempre gostei de me aventurar nos detalhes dos perfumes, acredito que falam muito da personalidade de cada um.
Seus olhos possuíam uma cor esverdeada e seu cabelo liso era negro como a noite, por um breve momento, entre uma luz e outra dos carros que ali passavam, tive a impressão de ver um leve tom azulado no mesmo. Que figura mais encantadora era aquela que permanecia do meu lado enquanto olhava o céu com preocupação.
Passaram-se quinze minutos e nada de nossas caronas.
Meus olhos, entre uma parada e outra nos ponteiros do relógio, corriam em direção aos dela. Seus olhar cruzou-se, então, com o meu e um leve sorriso desajeitado apareceu em seu rosto. Fiz questão de devolvê-lo, ainda mais sem jeito por ter sido notado - Sutileza nunca foi meu forte.
- Boa noite. Que horas são, por favor?
Surpreendido por uma voz levemente rouca porém firme que saltava de seus lábios, corri a mão sobre a manga da minha camisa e tirei-a da frente dos ponteiros. Céus, o meu nervosismo era tão evidente que causou uma curta e leve risada de canto de boca na garota que estava esperando sua carona.
- Oh, boa noite. São... 21:30. Desculpe!
- Eu que peço desculpas por tê-lo assustado.
- Não me assustou.
- Qual seu nome? Está esperando carona também, né?
- Sim. Meu nome é Eduardo. E o seu?
- Sophia, muito prazer.
- Será que essa chuva vai aumentar, hein? (Céus, que jeito terrível o meu de tentar iniciar um assunto).
- Espero que não.
Aparentemente ela também não era boa em conversar, ou simplesmente não estava afim. Não queria forçar um diálogo e parecer rude. Seu olhar era profundo, como se analisasse todos os movimentos dos que estavam à sua volta. Os detalhes da sua personalidade séria eram evidenciados na sua forma de agir, olhar, andar e gesticular.
Colocava as mãos nos bolsos do sobretudo enquanto olhava para seus coturnos, balançando na ponta dos pés - Para mim, um claro sinal de impaciência.
- Você é daqui? - Perguntei.
- Não. Na verdade... sou e não sou.
- Como assim?
- Nasci aqui, mas atualmente moro em Ohio, nos Estados Unidos. Cheguei há uma semana a trabalho.
- Entendo. Estava com saudades do Brasil?
- Sim e não. Tenho algumas lembranças não tão legais daqui, mas senti muita falta dessa sociabilidade que o Brasil tem. Posso contar nos dedos de uma mão quantas vezes algum americano puxou assunto comigo enquanto esperava uma carona como agora. E você?
- Por enquanto moro aqui.
- Por enquanto?
- Sim. Estou esperando uma vaga para trabalhar em Quebec. Já visitou o Canadá?
- Não, fiquei sabendo que as pessoas lá são mais frias ainda. Talvez, com sua ida, minha percepção acabe mudando. Pelo menos sei que vai ter uma pessoa disposta a conversar lá.
- Hahaha, obrigado, eu acho. Poderia me passar seu telefone? Gostei muito de conversar contigo.
- Certo, anota aí.
Anotei o número no celular e o guardei. Por um curto tempo todas as minhas ideias de assunto foram por água abaixo. A cada segundo que passava, meu desespero aumentava: O que eu deveria falar?. Percebi novamente suas mãos nos bolsos e tive a impressão de que não era impaciência, mas sim frio que Sophia estava sentindo.
- Muito frio?
- Um pouco. Não esperava essa reviravolta no tempo, confesso.
- Entendo.
Sem pensar duas vezes, peguei minha jaqueta e a coloquei por cima dos seus ombros. Espantada, tirou a mão direita do bolso e segurou minha jaqueta para que ela não caísse.
- Obrigada.
Seu jeito duro me encantava. Acredito que sua confiança não deveria ser fácil de se conquistar e isso era nítido na forma como seu olhar penetrava minha alma, era como se questionasse quais as minhas intenções entre um reflexo e outro das luzes dos carros que passavam na rua. Tratei de responder aquele olhar com um sorriso amigável, afinal, gostaria de conhecê-la melhor, descobrir os mistérios que se escondiam no labirinto de sua personalidade.
Vinte minutos se passaram até que o carro de Sophia finalmente chegou. Enquanto ia em direção à ele parou por um instante e colocou a mão nos ombros novamente, puxando a jaqueta que estava nos ombros.
- Nossa, quase me esqueci.
- Não, pode ir com ela.
- Mas é sua.
- Agora ela é um motivo para nos encontrarmos de novo, talvez ela pudesse virar um café em alguma dessas tardes, o que acha?
Sem esboçar sorriso, seus olhos apertaram meu coração. Tive a certeza de que receberia um não como resposta. A chuva estava quente comparada à temperatura de minha alma, talvez eu tenha colocado tudo a perder por ter sido afobado demais. Deus, por que falei aquilo?
- É, você tem razão. Muito obrigada pela gentileza. Até outro dia, então?
O ar voltou a correr em meus pulmões.
- Certo, tenho seu número. Te mando mensagem amanhã e combinamos.
- Vou esperar.
Seu carro partiu, enquanto um brilho bobo pairava sobre minha feição. Quem me via, naquele momento, via na verdade uma criança que acabara de ganhar doces. Céus, o que estava acontecendo? Há anos que eu não me sentia daquela forma!
Passaram-se poucos minutos e minha carona também chegara. Entrei no carro e, após alguns quarteirões, levei a mão no bolso para pegar o celular e avisar a portaria do prédio que deixasse o portão aberto, pois não queria tomar mais chuva. Procurei em todos os bolsos e o frio na espinha voltara ao meu corpo no mesmo instante.
Havia deixado meu celular na jaqueta.
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