segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Danse Macabre





E hoje, novamente, pensei no fim
Pensei em desistir de tudo
De não só olhar para o abismo, mas pular nele também
Aceitar a dor que provavelmente será rápida e aguda

Pensei que após ela teria paz
Faria um favor para as pessoas à minha volta
Deixaria a vida seguir seu fluxo natural
Sem um empecilho como eu

Tenho saudades de outros tempos,
De outras vidas talvez,
Sem que minh’alma fosse drenada por outro ser
Até o lobo não tem mais forças

Penso como deveria ser a sensação de coma
E como seria bom não acordar dela,
Preciso de ajuda?
Os livros já não mais escondem meu rosto

E o lobo uiva para que a Lua não se transforme em Sol pela manhã
Para que a luz não volte mais,
Já que a mesma sumiu do fim do túnel
E o luar não mais ilumina meu ser

Uma tempestade de ideias toma minha mente
Não consigo organizá-las como antes
O que está acontecendo comigo?
O que está acontecendo comigo?

E lá estávamos nós, em frente ao precipício, novamente
Sem vontade de olhar para trás, sem coragem de encarar o futuro
Você e eu, sozinhos, olhando para o fundo daquele imenso vazio que nos encarava
Todos os dias

A fumaça negra que entrava em meu quarto, se prendia no teto
Acorrentada por minhas incertezas e pretensões, cruéis
Me encara neste momento crucial, sorri
Aquela expressão... Tudo ficará bem, não é mesmo?

Tua mão toca a minha, meu coração acelera
Sua pele gélida e branca como a neve era enigmática
Dedos finos, delicados, com um esmalte negro como a noite
Memento mori

Foram as palavras sussurradas da tua boca
Lábios médios, delineados, marcados por um batom vinho
No momento não conseguia escutar seu som, minhas pernas paralisaram
Memento mori, foram as palavras que teus lábios dançaram

Um passo a mais e tudo estaria acabado, basicamente em uma fração de segundos
O impacto da queda seria nada comparado ao impacto de tudo o que passamos
Todos os fracassos, as derrotas, os enganos, os deslizes, você e eu
Lembro-me de que sou mortal, mas e você?

Uma vez tu pedistes socorro, em meio ao jardim de espinhos
Eu a salvei, e, desde então, me visitas em sonhos profanos
Aquela velha amiga, em forma de nuvem negra, paira sobre minh'alma de novo
E na luta contra os monstros acabo por tornar-me um deles

Sinto que o vazio e a incerteza mais uma vez assombram-me na guerra
Que o corvo do fim dos tempos volta a pairar sobre meu ombro
Gritando por um término, gritando por algo desesperador
Liberta-te, os tambores tocam novamente para ti, mortal

MEMENTO MORI

E de lá saltamos, do precipício, para a escuridão, para tua casa
E o corvo? Este continua a rodar no local da queda
Enquanto o monstro que aqui habita sorri e debocha do caos e a tristeza
Da ausência de algo que não consegue sentir

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