quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

O fogo e a foto

A chuva caía sobre o rosto de Lourie, o livro que estava embaixo de seus braços soltava gotas de uma história de amor. O clima em Londres estava frio como a vida da garota cujos cabelos pareciam estar em chamas. O esmalte preto contrastava com a pele branca como neve. O sobretudo bege colocava em evidência os traços inseguros de seu rosto e seu pequeno tamanho.

Na rua haviam várias pessoas com chapéus, bengalas, sobretudos, guarda-chuvas, mas nenhuma com coração. Pessoas frias como o anoitecer daquele dia chuvoso. Os carros passavam encharcando o resto de humanidade daquela cidade, os prédios enfeitavam grosseiramente as ruas de uma cidade que já foi bela, como Lourie.

Gostava de romances, imaginava a todo momento como seria encontrar o príncipe de sua vida, aquele cujo cavalo branco não jogaria água em sua roupa, nem poluiria uma paisagem tão linda como aquela. Procurava sua alma gêmea, em cada página de uma história já traçada pelos autores.

Lourie tinha um jeito simples, era tímida e totalmente sem jeito com diálogos. Sentia que estava sozinha enquanto não lia, como se o mundo a ignorasse. Para muitos, era apenas mais uma pessoa em meio a multidão. Para uma pessoa, era Lourie em meio a apenas mais uma multidão.

Havia alguém, entre as pessoas, que via Lourie de um jeito diferente. Sua simplicidade e seu esmalte preto significavam a beleza de mais um dia de que ela fazia parte. Adorava tirar fotos da moça dos cabelos de fogo, sentia como se ela expressasse toda a beleza de Londres e daquele dia chuvoso. Tristeza? Não, alegria ao ver a chuva tocando sua pele branca, deixando pequenas gotas em seu esmalte preto, refletindo a luz e brilhando como a estrela de uma noite sem fim.

Enquanto sua mão subia pelo seu rosto, tocava seus cabelos e os ajeitava atrás da orelha, os cliques de uma câmera captam o movimento como um todo.  O sorriso por trás da lente mostrava o prazer de simplesmente vê-la. O chapéu curto e preto esboçava uma mentalidade diferente das demais pessoas da rua.

Claire era fotógrafa, passava o dia tirando fotos de pessoas e suas expressões, gostava daquela rua pois havia nela uma torre cujo estilo gótico diferenciava-a das demais. Seus cabelos curtos não precisavam de ajeitadas, seu batom vinho delineava uma boca delicada e sutil. O esmalte café acompanhava os movimentos das lentes, com uma sinergia única, como se os dedos e a câmera fossem uma só coisa.

A fotógrafa adorava música clássica, nas horas vagas, em seu apartamento, pintava quadros que traduziam os significados das paisagens de Londres. Mas havia um quadro que superava todos os demais, era único, sua obra prima: uma pintura cujos cabelos desenhados chamuscaram a beleza das outras obras. 

Enquanto olhava o quadro, colocava a ponta do dedo indicador na boca, com ar de quem estava analisando friamente os mínimos detalhes, até soltar um sorriso de canto de rosto. O clima em Londres continuava chuvoso, como a vida de Lourie, como os demais quadros de Claire.

Um caso diferente dos outros, um romance de mão singular. Claire não tinha um cavalo branco, muito menos um nome de príncipe. Lourie era tímida, não sabia da existência de Claire, mas, se soubesse, seu dia poderia ficar ensolarado novamente. O cavalo branco sairia dos livros tomando a forma de uma câmera, e o romance de sua vida fotografaria os momentos em que as duas passariam juntas.

Nas ruas de Londres, onde cada pessoa é fria como o clima local, há uma chama e há quem a fotografe, até o dia em que a chama encontre a câmera, o esmalte preto encontre o café, e o dedo, que outrora transformava paisagens em imagens, ajeite agora os cabelos ardentes de uma garota tímida e sonhadora.


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