Lucas viajava sem rumo, buscando encontrar a sua metade. Não acreditava muito nessas coisas, mas sempre se questionava sobre a existência de uma alma gêmea que completasse cada ser. Gostava de andar sozinho, sozinho não, tinha um companheiro ao seu lado, inseparável, chamado silêncio.
Por alimentar seu
coração com tristeza e solidão aprendeu a não sentir saudade, muito menos
apegar-se por pessoas que conhecia em suas idas e voltas. Sentia que estava
morrendo aos poucos, morrendo por não se apegar em nada, ou melhor, em ninguém.
Em uma quarta-feira, durante uma tempestade
de neve, escondeu-se em um bar de Berlim, estava exausto, procurou informações
sobre um lugar para passar a noite. Disseram que ao lado havia uma pensão de
uma jovem que, após a morte dos pais, cuidava dos negócios.
Seu nome era Helena,
cabelos vermelhos como o vinho que despejava em uma jarra. Lucas paralisou-se
ao vê-la, aquela mulher, escondida em uma estalagem por todo esse tempo, rodara
o mundo para achar alguém com olhos tão belos como aqueles. Sua alma, dormente,
tornou-se um farol repentinamente.
Ao sentar-se em
uma mesa ao lado da porta não a chamou, apenas observou suas idas e vindas pelo
ambiente. Parecia deslizar entre as mesas, como se estivesse em um baile, uma
habilidade exímia! Lucas estava encantado!
Helena veio em sua
direção, suas mãos gelaram, seu coração disparou, a garganta seca gaguejava ao
pronunciar um simples bom dia. Ela sorriu, sua franja cobria o olho direito,
onde protegia-se daquele olhar cheio de segredos. Ofereceu um vinho, Lucas
aceitou e, instintivamente, perguntou se teria como passar um tempo no
estabelecimento, após a afirmação da garota, disparou um sorriso singelo de
agradecimento.
Ao virar-se para
atender outro cliente que chegara, o perfume de seus cabelos esvoaçados
penetrou na alma de Lucas que, ao sentir aquele aroma, descobriu o verdadeiro
significado daquela palavra que todos adoravam arremessar aos ares, mas poucos
realmente sentiam: amor.
A voz de Helena
ecoava em seus pensamentos, o sorriso doce e inseguro por traz daquele cabelo
desvendava um ser único e singular. Lucas não pensava em outra coisa a não ser
ficar ali para sempre, acompanhando seus passos de dança por entre as mesas.
Na manhã seguinte
decidiu perguntá-la sobre a sua história. Ao sentar-se na mesa chamou-a com um
breve aceno, perguntou o motivo de não sair dali e tentar algo melhor. Ao
sentar-se junto de Lucas, começou a rir, sem entender o que estava querendo
dizer. Lucas ficou totalmente sem jeito, a dona dos cabelos de fogo pediu
desculpas e disse que se contasse o motivo, a chamaria de louca.
Insistiu em saber,
encantado pela beleza daquela mulher. Tudo o que conseguia pensar era em seu
jeito meigo de falar. Em um impulso, colocou sua mão sobre a dela,
instantaneamente ambos coraram-se. Helena abaixou a cabeça e começou a explicar
que acreditava que um príncipe encantado viria buscá-la e levá-la para um lugar
melhor, já que os negócios da família mal davam para sobreviver.
Por um breve
momento o silêncio tomou conta do ambiente, ao vê-la daquele jeito desarmada,
indefesa, inclinou seu rosto perto dos longos cabelos e cochichou em seu
ouvido:
-Você
aceitaria alguém como eu para ser seu príncipe?
Ao ouvir tais
palavras, o corpo de Helena involuntariamente atirou-se no pescoço de Lucas:
Lucas abraçou-a
fortemente, como se nunca mais fosse soltá-la. Naquele momento acreditou no
amor, os poetas fizeram sentido, as cartas de amor tinham realmente valor. Em
seu peito havia um aperto de felicidade, em seu ser havia uma metade, um ser que
procurou em todos os lugares e achou ali, em uma estalagem velha de Berlim,
coberta de neve.
Decidiram partir
na manhã do dia seguinte, passaram horas arrumando e planejando tudo. Helena
estava ansiosa, Lucas também, ambos encontraram a felicidade após anos e anos
de procura. O primeiro jantar de uma vida a dois, uma vida de amor e
felicidade, onde a sobremesa ficava mais doce a cada colherada, e os corpos
dançavam juntos em uma velha cama colonial.
Na manhã seguinte
Helena passou mal e desmaiou, preocupado, Lucas a levou imediatamente ao
hospital mais próximo. Sentado na sala de espera, pensava no futuro, nas
viagens junto dela, nas festas e nos dias chuvosos sentados frente à lareira.
Lágrimas percorriam o contorno de seus olhos, estava amando alguém como nunca
amou na vida, a cada segundo que passava tinha mais certeza de que aquela moça era
sua alma gêmea.
O médico
plantonista quebra o silêncio da sala, Lucas levanta, preocupado, à procura de notícias de Helena. Inclinando a cabeça, o médico
informou que ela estava com câncer em estado terminal, Lucas desmoronou, seu
mundo estava morto novamente.
-Ela só tem
mais um mês de vida Lucas, faça-a feliz, ela te ama muito, está feliz mesmo
após a notícia do câncer, pois disse que encontrou o príncipe que iria curar
todas as suas doenças e fazê-la feliz.
Lucas caiu em
prantos ao ouvir o médico, queria vê-la a todo custo. Chegando na sala, colocou
as roupas em Helena, colocou a mão pálida sobre os ombros e a pegou no colo.
-Vamos para casa meu amor, o seu cavalo
branco a espera lá fora
A garota olhou-o com os olhos repletos de lágrimas e sorriu. Apertou-se contra Lucas, estava em casa, estava em paz, no peito de seu príncipe encantado que esperou a vida toda.
Viajaram para vários lugares, Lucas fez de Helena a mulher mais feliz do mundo em seus últimos dias, tornou-a princesa do castelo chamado vida, e rainha de um futuro destinado à um ponto final.
Helena foi enterrada em Berlim, onde nasceu e viveu até o encontro com seu príncipe. Lucas a encontrou após três meses devido à depressão causada pela sua partida. Na lápide, onde estão enterrados juntos, encontra-se a descrição: Uma história de amor bela e feliz, onde nem a morte conseguiu separá-los.
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