Caetano era só, morava com seu cachorro em uma casa de campo. Caetano tinha das plantas sua companhia, do rio a sua música, do vento em seu rosto o carinho. Acreditava em tudo que conseguia ver, sentir, tocar, cuidar. Caetano era de verdade, nunca entendera as loucuras que os poetas falavam e escreviam.
Alguns minutos de caminhada ao norte
do riacho, erguera uma capela, toda de madeira, envelhecida pela longa dança entre
sol e chuva. Acreditava que Deus estava presente nas flores, nas folhas, na
água, nos peixes, até em seu velho amigo de quatro patas. Para Caetano, Deus
era plural, e não singular.
Aquele velho companheiro da natureza
sempre reservava uns minutos dos seus domingos para agradecer a semana vivida. Afinal,
não podia reclamar, tinha tudo que precisava bem ali, após a porta de sua sala.
Aquele pequeno mundo era seu pedaço de paraíso.
O tempo passava e as flores
desabrochavam, entregando de presente um doce aroma de tranquilidade e
harmonia. Estava em paz. Por mais que não entendesse de poesia, via nas asas das
borboletas as cores que Caeiro mencionava. Grande tolo! Se soubesse como
essas cores eram únicas não perderia tempo escrevendo baboseiras, aproveitaria
esse tempo observando a bela caminhada daquele mix de cores voando sobre o pequeno
paraíso de Caetano.
O movimento das flores, o farfalhar de
um novo dia, todos os detalhes não possibilitavam, para aquele velho com seu
cachorro, um único segundo desperdiçado nas míseras folhas de papel.
Que ideia mais ingênua, não é mesmo?
Onde já se viu o perfume estar no perfume da flor? Para Caetano é só perfume e
pronto. Sua vida era simples, por isso verdadeira. Vivia das sensações, das
impressões e experiências gravadas na história daquelas velhas madeiras que sustentavam
a capela.
A verdade, para o velho camponês,
está nos pequenos detalhes, nos detalhes mais simples, sem rodeio. O tempo
passa porque a Lua se põe, deixando com que o Sol apareça para as flores
seguirem seu rumo. As flores, para ele, nada mais são que o perfume, a cor e
movimento que o poeta encontrava na borboleta.
A borboleta nada mais é que um
fragmento de Deus, onde o vento tira para dançar em meio à uma valsa entre a
fauna e a flora. O Sol e a Lua nada mais são que dois apaixonados que não
conseguem se encontrar. A capela? A prova de que o tempo existe, por mais que
Caetano não consiga ver.
As velas derretem e se acabam, as
madeiras envelhecem, os pequenos bancos rústicos não possuem mais a resistência
da juventude. E o cachorro? Nada mais é que uma poesia que acompanha seus
passos, mesmo depois de sua própria madeira se decompor.
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