terça-feira, 18 de janeiro de 2022

A macabra floresta do vazio

 



E de todos os caminhos que escolhi, encontro-me sempre na mesma fonte. 

Não uma fonte bela, como aquelas em que os pássaros encantam os olhos de românticos,
Mas suja e sem vida, onde um querubim derrama um fio de água na grande bacia de lodo.
Aprecio a vista com encanto, ora ora, há beleza no momento.

Começo a pensar em motivos para os pássaros não a escolherem, não brincarem ali na água.
Por mais que ela seja movimentada, não escapa do pobre destino de ser suja.
Faz mal àqueles que estão por perto, envenena aos poucos e, algum dia, secará.
É triste saber que uma fonte tão bela, um dia morrerá.

Olho para os céus e começa a trovejar, relâmpagos fazem a luz do ambiente,
Formam desenhos amaldiçoados em árvores cuja vida ainda é presente.
Traz para a superfície uma morte única, singela,
A morte do espírito

Do espírito de um corvo que paira sobre os braços do querubim
Olha em meus olhos e grita em meio aos trovões
-NEVERMORE!
Talvez sejam alucinações, talvez não.
O corvo abre suas asas e põe-se em minha direção, transformando-se em uma nuvem negra de gritos

O sofrimento das vozes é palpável, a tristeza que emana da nuvem é esmagadora,
E vai direto ao coração, à alma.
A nuvem negra passa através de meu corpo, tirando o último resquício de vida que ali habitava

-Merely this and nothing more...

Abro os olhos e me vejo despido, a vergonha sobe através de um corpo vazio
Feche os olhos, querubim! Poupe-se de ver tamanha aberração que vos fala!
Não desperdice a água que, comparada à mim, torna-se cristalina.
Deixe que meu corpo se vá, assim como os pássaros.

Assim com o corvo que agora há pouco atormentava minh'alma,
Volta para a tua tempestade e para a orla das trevas infernais, corvo.
Poupe o querubim que ali permanece, feito de pedra, porém mais completo que eu.
Que voe para longe, para o esquecimento, junto dos acontecimentos que envergonham-me

Junto com as ações que equivocadamente escolhi fazer
Junto com as lágrimas da maioria de minhas noites
Junto com a insegurança e os pesadelos que carrego comigo
Junto com tudo aquilo que opõe-se à minha felicidade

Deito-me, abraçando minhas pernas, no frio da noite
Chorando, em frente à fonte. O que diabos ela significa?
Pego no sono, mais e mais pesadelos assolam o período noturno
E, por fim, acordo para mais um dia real.

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