sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Samantha

        Vamos contar a história de uma existência a parte. Não seria possível inseri-la em seu próprio mundo, pois as palavras que existem no presente são insuficientes para descrever tamanha beleza e singularidade.

     Samantha possuía um jeito único. Seu olhar penetrava a alma, tinha a habilidade de disparar corações em uma fração de segundos. Samantha era a própria intensidade. Seus cabelos chamuscados queimavam toda e qualquer atenção que ameaçasse cruzar o seu caminho. Seu sorriso iluminava qualquer ambiente, por mais escuro que o mesmo estivesse.

      A pele clara escondia um mistério: seu coração - um mundo a parte. Gostava de roupas pretas, pois nelas via a imensidão do universo, a finitude de uma cor tão profunda quanto seus maiores desejos, ou simplesmente só se sentia bem com aquela paleta de cores com um único espaço ocupado.

      Seu gosto musical era extremamente variado, tudo dependia do seu humor ao abrir os olhos pela manhã. Gostava de livros intensos, fortes, como seu café. Acendia um cigarro, o primeiro após a longa noite de sono, e começava ali seu dia. Não gostava de pensar em todos os problemas que tinha para resolver, fazer isso deixava-a inquieta, incomodada, ansiosa. Preferia nem pensar, só tentava resolver conforme os problemas iam aparecendo à sua frente.

       Samantha sempre teve atitude.

       Questionava-se sobre o que era certo ou errado, muitas vezes seu coração ia contra a sua razão. Paralisada, esperava aquela tempestade de pensamentos e sentimentos acalmar para que pudesse continuar seguindo, um passo de cada vez. Um turbilhão de pensamentos, negativos, positivos, julgadores, corrosivos. 

       Em meio à tempestade, lá estava ela, com um sorriso no olho e uma piada na ponta da língua. Sabia disfarçar, camuflar o sofrimento em brincadeiras e alegria. Gostava de fazer os outros sorrirem, assim sentia que um pouco do vazio existente em seu peito era preenchido por mais que tal preenchimento fosse momentâneo. Samantha gostava de fazer os outros se sentirem bem.

       Tocava vários instrumentos, mas nenhum a tocava como gostaria, na alma. Sua jornada era longa, estava cansada de caminhar descalça sobre pedras à procura de se sentir completa, de poder ser ela mesma e sorrir verdadeiramente. Era uma pessoa do presente, com reflexos do passado bombardeando seus pensamentos e sentimentos como flashes de uma guerra inacabada.

       Neste ponto, vamos colocá-la em uma sala: paredes brancas puxadas para o gelo, um tapete bordô que forrava o piso formado por ripas de uma madeira clara como sua feição, cortinas brancas cobriam uma janela de vidro que presenteava a garota com uma vista cheia de pinheiros e flores. No canto direito da sala um piano branco de calda longa fora posicionado à frente de uma estante repleta de livros. Ah! Tantos autores antigos, já ausentes de vida, mas imortais nas letras de cada página. Vasos com plantas domésticas finalizavam o ambiente, fora de seu tempo. Aquele lugar realmente dava a impressão de ter parado no tempo, nem para frente, nem para trás.

        Ela ficava encantada com a riqueza de cada detalhe sutil.

     No outro canto, próximo à uma poltrona Luís XV condizente com a paleta de cores do local, havia um violino. Correu até ele, abriu um sorriso tão brilhante quanto seus olhos ao repousarem sobre aquele Stradivarius. Empolgou-se novamente, mas até quando?

    Quanto tempo para as notas das finas cordas de tal instrumento pararem de ecoar nas paredes brancas como o gelo? Aquela melodia esquentava o ambiente gelado, dançava com a melodia do piano, e trazia memórias de livros repousados sobre a clássica poltrona XV.

      Samantha trazia nas notas do violino o seu próprio mundo, pois só ela sabia a melodia daquela canção, da sua canção. Nenhum outro compositor, músico ou especialista conseguiria interpretá-la com tal intensidade. 

        As quatro estações de Vivaldi se juntam em um doce baile entre as notas estridentes da música chamada vida. Dançava pela sala, em cima do tapete bordô, junto ao movimento daquele violino.

        Seu mundo, seu violino, sua poltrona Luís XV e toda a neve que poderia cair naquele jardim que apreciava sua beleza pelo lado de fora da janela.

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